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Venda da Itambé à Venezuela salva as exportações de lácteos em julho

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Depois de meses em queda, as exportações brasileiras de lácteos voltaram a subir em julho passado. E o empurrão foi provocado, inesperadamente, pela Venezuela. As vendas externas do segmento aumentaram 19% em volume na comparação com julho de 2014 e somaram 9.709 toneladas. Em relação a junho deste ano, quando foram embarcadas 4.730 toneladas, o volume exportado de lácteos em julho mais do que dobrou.

Do total exportado no mês passado, cerca de 6,5 mil toneladas foram leite em pó vendido pela Itambé, joint venture entre a Vigor, do grupo J&F, e a Cooperativa Central dos Produtores Rurais de Minas Gerais (CCPR), à Venezuela. Em receita, as exportações totais de lácteos somaram US$ 44,881 milhões em julho, 35,1% mais do que no mesmo intervalo de 2014, conforme dados da Secex compilados pela consultoria especializada MilkPoint.

Chamou a atenção no negócio o preço de venda do leite em pó brasileiro à Venezuela, equivalente a mais de três vezes a cotação atual no mercado internacional, que está em níveis historicamente baixos. O produto foi exportado por, em média, US$ 5.700 a US$ 5.800 por tonelada. No último leilão de lácteos da plataforma Global Dairy Trade (GDT), referência para o mercado internacional, a cotação média do leite em pó integral ficou em US$ 1.590 por tonelada, o menor valor desde que os leilões foram iniciados, em 2 de julho de 2008.

O valor muito mais alto do que o de mercado embute o risco de vender para a Venezuela, um país que vive uma crise econômica em decorrência, principalmente, da queda dos preços do petróleo, e que também enfrenta uma crise política e institucional. Nesse cenário, o governo venezuelano tem tido dificuldades de conseguir fornecedores de alimentos para evitar a escassez.

Por meio de sua assessoria, a J&F informou que o valor do leite em pó é bem superior ao de mercado porque a exportação é feita sem carta de crédito, com prazo de pagamento de 90 dias. Além disso, a própria J&F fica responsável por armazenar o produto – que é exportado a granel – na Venezuela, depois embalá-lo em pacotes de um quilo e distribuí-lo para 10 mil pontos de venda no país. O leite em pó também é enriquecido com vitaminas, o que o encarece, segundo a assessoria.

O produto chega à Venezuela em navios exclusivos da J&F, que levam também outros itens exportados por empresas controladas pelo grupo, como JBS (carnes) Flora (produtos de limpeza).

Ao mesmo tempo em que as exportações cresceram impulsionadas pela Venezuela, as importações de lácteos pelo Brasil caíram em julho, também com influência indireta do país caribenho. No mês passado, as compras no exterior alcançaram US$ 35,749 milhões, uma queda de 20,6% sobre julho de 2014. "A importação caiu, mas continua competitiva", disse Valter Galan, analista da MilkPoint, para quem o recuo das compras não deve ser uma tendência.

Uma das razões para a redução das importações é que o Uruguai, que estava vendendo volumes crescentes de lácteos ao Brasil, fechou um acordo com o governo da Venezuela em julho passado para exportação de 44 mil toneladas de leite em pó ao país. Nos meses anteriores, o Uruguai havia reduzido as vendas a Caracas e só negociava com pagamento antecipado em decorrência das restrições de crédito no país caribenho. Por isso, os exportadores uruguaios estavam ofertando mais lácteos no Brasil.

A expectativa é de que o Uruguai continue diminuindo os volumes de lácteos vendidos ao Brasil, mas outros países exportadores devem tentar ocupar esse espaço, acredita Galan. Isso porque, diante dos atuais preços no mercado internacional, as importações seguem competitivas. As importações vindas do Uruguai não pagam tarifa por se tratar de um país do Mercosul. Já as compras dos EUA, por exemplo, teriam uma TEC (tarifa externa comum) de 28%. No caso da Nova Zelândia, além da TEC, os produtos pagariam 3,8% de tarifa antidumping para entrar no Brasil.

Por Alda do Amaral Rocha | De São Paulo

Fonte : Valor