Venda antecipada de açúcar bate recorde

O agressivo movimento de fundos especulativos que tanto colaborou para a queda de 14% nas cotações do açúcar este ano na bolsa de Nova York parece não preocupar muito as usinas brasileiras. Até o fim de janeiro, as produtoras de açúcar do país já haviam garantido seu pé de meia ao vender antecipadamente ao menos 60% do açúcar que vão exportar na próxima safra (2016/17), que começará em abril. O percentual é considerado recorde, apesar de não haver registros históricos sobre vendas antecipadas. "Para esta época do ano, o que já se viu foi, no máximo, 40%", afirmou um trader.

Essa fatia, calculada pelas maiores comercializadoras de açúcar a pedido do Valor, equivale a um volume de açúcar já vendido de 15,6 milhões de toneladas, e parte da previsão de que o Brasil vai exportar em 2016/17 em torno de 26 milhões de toneladas – 2 milhões acima dos embarques de 24 milhões de toneladas previstos para o ciclo 2015/16, que termina em 31 de março deste ano.

Nas contas da Archer Consulting, esse volume é ainda maior e gira em torno de 17 milhões de toneladas – 67,97% de uma exportação prevista pela consultoria em 25,12 milhões de toneladas. De acordo com a Archer, há um ano as vendas antecipadas equivaliam a 27,3% do volume que seria embarcado em 2015/16.

O que moveu o segmento a antecipar as vendas foi a atratividade dos preços da commodity em real, reflexo da valorização das cotações em Nova York e do câmbio no Brasil. Desde agosto passado, quando começou a valorização mais acentuada do dólar, até janeiro, os preços médios mensais do açúcar em real subiram expressivos 36%.

Com mais da metade das exportações da safra 2016/17 negociada, as usinas no Brasil olham agora com menos preocupação o recente recuo das "telas" em Nova York – mais evidente desde o início deste ano. Em 2016, os contratos de segunda posição (maio) já acumulam queda de 13,9%.

Há controvérsias sobre os próximos movimentos. Uma parte do mercado acredita que o declínio não passa de uma forte realização de lucros dos fundos, até então amplamente "comprados" (apostando na alta) na commodity. Mas uma outra fatia aposta que exagerada foi a valorização ocorrida no último trimestre de 2015, e que, por isso, a correção era uma consequência natural.

A realização de lucros veio na esteira da divulgação de estimativas sobre de uma oferta maior de cana em 2016/17 no Centro-Sul do Brasil, que responde por 90% da produção nacional da commodity. A própria Copersucar que, juntamente com a americana Cargill lidera o comércio global do produto (por meio da joint venture Alvean), estimou uma oferta de 625 milhões de toneladas, 20 milhões acima de 2015/16.

Na semana passada, a consultoria Kingsman também potencializou o viés baixista dos preços ao elevar em 2,18 milhões de toneladas, para 35,12 milhões, sua estimativa para a produção da commodity na principal região brasileira em 2016/17.

Mas, para muitos traders, a grande oferta de cana no próximo ciclo no Brasil não é mais novidade. O "x" da questão é o quanto será efetivamente processado pelas usinas. Se o início da próxima safra não puder ser antecipado de abril para março, devido a chuvas, será difícil moer toda a cana disponível.

Diante das incertezas, o alento das usinas brasileiras está no presente. Com a maior parte de seu excedente exportável vendido, o maior exportador global da commodity só terá 40% da oferta a negociar este ano. A menor pressão de oferta tende a sustentar os preços, dizem especialistas. "Será uma safra com cotações médias de 14 centavos de dólar por libra-peso", arriscou o executivo de uma das maiores tradings desse mercado.

Por Fabiana Batista | De São Paulo
Fonte : Valor