Valorização do cacau pressiona indústria

Se a maior parte das commodities sofreu com uma onda de forte desvalorização neste ano, o cacau nadou contra a corrente e já acumula ganhos de 15,9% desde janeiro na bolsa de Nova York, voltando nas últimas semanas aos maiores valores desde 2011. Maximizado por compras especulativas, esse aumento das cotações já gera ajustes na indústria, uma vez que o baixo ritmo de crescimento global dificulta o repasse de custos.

E o crescimento das apostas dos fundos de que o cacau vai continuar em alta tem sido expressivo. No último dia 8, os gestores de recursos (investidores não comerciais, ou "managed money") estavam com um saldo líquido comprado (expectativa de alta dos preços) de 47.226 contratos em Nova York, segundo a Comissão de Negociação de Futuros de Commodities (CFTC, na sigla em inglês). O volume de posições compradas brutas, de 79.079, foi o segundo maior da história.

No dia 7, os contratos futuros do cacau para entrega em março haviam fechado a US$ 3.417 a tonelada, maior patamar desde 10 de março de 2011, no ápice de uma guerra civil na Costa do Marfim, que responde por 40% da produção global da amêndoa.

Na época, o ex-presidente Laurent Gbagbo se recusara a aceitar a derrota eleitoral e decidiu tomar o controle do comércio de cacau do país, uma das principais receitas para o governo. Em 2014, os preços também se aproximaram dos níveis de 2011 em meio a temores sobre os reflexos do ebola sobre as exportações da Costa do Marfim, que não se concretizaram.

Neste ano, ainda não há uma falta de oferta concreta que justifique preços tão altos elevados. Pelo contrário, as poucas indicações do mercado sugerem que a safra 2015/16 deverá ter mais amêndoa em circulação, como mostram as entregas elevadas nos portos da Costa do Marfim e a previsão de superávit de 36 mil toneladas da Organização Internacional do Cacau (ICCO).

Um dos motivos citados mais recentemente para a disparadas de preços é a chegada dos ventos do deserto do Saara, conhecidos como Harmattan, no oeste da África. Secos e com areia, eles podem prejudicar a produtividade das lavouras. "Muitos estão preocupados com o fornecimento de curto prazo, embora a safra possa ser muito forte", disse Edward George, gerente de pesquisa do Ecobank, sediado em Londres.

O analista lembra que a Páscoa será mais cedo em 2016, em março, o que força as indústrias processadoras de cacau a anteciparem as moagens para atender à demanda para a produção de chocolate no início do ano. Ele estima, porém, que em abril a demanda industrial perderá força.

Para as indústrias, a escalada das cotações é preocupante. "Em termos mundiais, não há rentabilidade na indústria processadora. E a indústria consumidora [de subprodutos de cacau] continua retraída, porque espera que os preços vão cair", avaliou Thomas Hartmann, diretor da TH Consultoria, sediada em Salvador.

Para contornar a situação, alguns ajustes já foram iniciados. Em novembro, a Barry Callebaut, maior processadora de cacau e produtora de chocolate de alta qualidade do mundo, anunciou que fechará sua fábrica em Bangpakong, na Tailândia, em janeiro, e reduzirá a capacidade em sua planta de Port Klang, na Malásia.

No balanço da safra 2014/15, a companhia informou que a medida derivava de um cenário com "excesso de capacidade de moagem e baixa demanda por produtos de cacau", que "tiveram um impacto negativo na rentabilidade". O lucro operacional (Ebit) da empresa na safra caiu 42,4%, para 47,2 milhões de francos suíços.

O movimento de ajustes, porém, não é unânime. A asiática Olam International, que acabou de completar a aquisição dos negócios de cacau da americana ADM, aposta no crescimento da demanda no mundo emergente. "O consumo deve crescer cerca de 4% anualmente, com países como Índia, China e Indonésia liderando a alta", disse Satya Sathyamurthy, diretor da Olam para Argentina, Brasil e Uruguai.

Para o Brasil, entretanto, as perspectivas para o consumo não são nada positivas. A Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC), que representa 95% do parque processador nacional, estima que 2015 terminará com queda de 5% na moagem, que deverá somar 215 mil toneladas. "E o cenário é bem difícil paro o ano que vem. O mercado interno deve continuar em recessão, e o externo é uma incógnita", disse Walter Tegani, secretário executivo da AIPC.

Por Camila Souza Ramos | De São Paulo

Fonte : Valor