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Vale apressa o passo em busca de definição para fertilizantes

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Silvia Costanti/Valor
Murilo Ferreira, presidente da Vale: trabalho intenso para um acordo da área

Um ano após admitir que procurava um sócio estratégico para a divisão de fertilizantes, em linha com sua estratégia de concentrar o foco em minério de ferro, carvão e metais básicos, a Vale dá sinais de que tenta apressar o passo para finalmente definir o modelo de parceria que pretende adotar nessa frente. Enquanto isso, os investimentos da empresa para elevar a oferta doméstica de matérias-primas para a produção de adubos patinam e abrem espaço para um contínuo aumento das importações, que já representam cerca de 70% de uma demanda que não para de crescer.

Fontes desse mercado afirmam que a Vale pode optar por se associar a apenas um grande grupo ou partir para associações menos ambiciosas e restritas a projetos específicos. De qualquer forma, dizem essas fontes, a mineradora busca companhias com know-how em fertilizantes e não pretende se desfazer do controle dos negócios que foi "convencida" a comprar durante o governo Lula. A depender do modelo escolhido, especula-se, uma ou mais joint ventures poderão ser estabelecidas.

Sem dar pistas sobre o caminho que vai seguir, a Vale tem destacado que continua à procura de uma definição estratégica para fertilizantes. Na terça-feira, por exemplo, o presidente da empresa, Murilo Ferreira, disse que a empresa continua a trabalhar "intensamente" para chegar a um acordo nesse segmento.

Seja qual for o modelo, uma das mais cotadas para se associar à Vale é a multinacional norueguesa Yara – que procurada, limitou-se a informar que "não comenta rumores de mercado". Segundo especialistas, a Yara tem interesse em ampliar sua participação em fertilizantes derivados do fosfato no Brasil – e a Vale é a maior fabricante nacional desse tipo de nutriente. Em linha com essa estratégia, os noruegueses acabam de concluir a aquisição de 60% da brasileira Galvani.

Globalmente, a Yara é mais conhecida por sua liderança na área de fertilizantes derivados do nitrogênio, cuja produção no Brasil é dominada pela Petrobras. A múlti começou a atuar no Brasil na década de 1970. A partir dos anos 2000, iniciou aquisições no país e hoje é líder no mercado doméstico de distribuição de adubos ao consumidor final, com participação da ordem de 25%.

Essa posição foi garantida sobretudo com a aquisição das operações de adubos da americana Bunge, em uma operação finalizada em 2013. A Yara passou a contar então no país, no total, com três unidades que produzem fertilizantes fosfatados e com 33 fábricas misturadoras.

Cogitou-se também no mercado a possibilidade de a Vale se associar à indiana IFFCO, que garante ser, entre as cooperativas, a maior fabricante e distribuidora de fertilizantes do mundo. Procurado, o grupo preferiu não se manifestar sobre o assunto "neste momento". No ano passado, a IFFCO anunciou que fechou um contrato de longo prazo de compra de rocha fosfática das minas de Bayóvar, no Peru, que pertencem à Vale.

A mineradora voltou ao mercado de fertilizantes com a aquisição das participações de multinacionais na Fosfertil, que foi privatizada na década de 1990 e dividida entre companhias nacionais antes de passar ao controle estrangeiro. O último capítulo da retomada da Fosfertil ao controle nacional foi em 2010, quando a Vale concluiu, por US$ 4,7 bilhões, a compra de ativos da Bunge no segmento.

Até por conta da pressão do governo, a tacada da Vale gerou grande expectativa no mercado brasileiro, historicamente dependente de fertilizantes importados. Contudo, a empresa não partiu para uma onda de investimentos no segmento como se esperava e, apesar do forte aumento da demanda doméstica, a produção brasileira perdeu força – em 2013, houve queda de 4,3% em relação a 2012.

De janeiro a outubro deste ano, o país produziu 7,35 milhões de toneladas de fertilizantes intermediários, queda de 6,5% sobre igual intervalo de 2013, conforme dados da Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda). Na mesma comparação, as vendas internas aumentaram 5,7%, para 27,448 milhões de toneladas, e estimularam um incremento de 11% das importações, que atingiram 20,421 milhões de toneladas.

São números que mostram que o Brasil ainda está muito longe de reduzir sua dependência dos fertilizantes importados. E o cenário não deve mudar muito nos próximo anos. Poderá até piorar, tendo em vista que as fontes naturais locais são de fato escassas e que novos projetos de exploração demandam aportes bilionários.

Não bastasse isso, executivos do segmento afirmam que os baixos investimentos na produção de matérias-primas para a produção de adubos no país também esbarram na falta de isonomia tributária, já que o produto importado não é taxado, ao contrário do produzido localmente. Equilibrar essa conta já é um pleito antigo dos fabricantes instalados no Brasil, mas sobre o qual ainda não há qualquer sinal de mudança.

Em 2013, calculava-se que os investimentos em produção de matérias-primas para fertilizantes no Brasil até 2018 somariam US$ 13 bilhões, de acordo com informações compiladas pela Anda. Desse total, a Vale representava a maior parte. Cálculos da entidade davam conta que o montante poderia representar uma produção adicional de 9 milhões de toneladas de fertilizantes intermediários e aliviar em US$ 4,5 bilhões o déficit da balança do segmento.

Analistas realçam, finalmente, que mesmo que a Vale vendesse seus ativos para outra empresa com caixa ilimitado para investimentos, pouca coisa mudaria de fato, dada a escassez de fontes economicamente viáveis de nutrientes derivados do fosfato e da falta de fontes de potássio.

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Fonte: Valor | Por Carine Ferreira | De São Paulo