Vaivém: Pesquisadores descobrem provável causa da soja louca 2

Pesquisadores da Embrapa e da Epamig (Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais) desvendaram as prováveis causas da soja louca 2. O resultado dessa pesquisa foi apresentado no 7º seminário de soja da Embrapa, realizado nesta semana em Florianópolis (SC).

Ao provocar uma anomalia na planta, que até então intrigava os pesquisadores, a soja louca traz grandes estragos aos produtores nas regiões afetadas. A doença impede que a planta produza vagens e termine o ciclo produtivo.

As consequências são perdas de produção de até 100% em algumas áreas de campo. Além disso, o fato de a soja não terminar o ciclo faz com que ela saia do campo com muita impureza quando colhida, elevando os descontos na hora de o produtor entregar da oleaginosa para os compradores.

A chamada soja louca 2 -uma nomenclatura que os pesquisadores querem mudar, devido à conotação ruim que traz para o produto- tem origem no nematoide Aphelenchoides sp.

Os nematoides são vermes de solo, mas, nesse caso da soja louca, estão na parte aérea das plantas, explica a pesquisadora Luciany Favoreto, da Epamig.

É a primeira vez que esse nematoide, já conhecido em culturas de arroz, crisântemos, amendoim, morango e feijão (neste último caso na Costa Rica), é detectado em lavouras de soja.

A descoberta é importante, mas o pesadelo dos produtores ainda vai continuar enquanto não forem encontrados meios de combatê-lo.

Favoreto, especialista nesse nematoide, diz que são aproximadamente 180 espécies apenas desse gênero. Pior ainda, há relatos que ele possa viver até 11 anos em sementes.

MULTIPLICAÇÃO RÁPIDA

Além disso, a multiplicação é muito rápida. "Em um ambiente ótimo", ele se multiplica por 250 em 30 dias, afirma a pesquisadora.

Quando privado de alimentos e de condições ideais de sobrevivência, ele reduz o seu metabolismo até encontrar de novo as condições para alimentação.

Detectado o problema, Maurício Meyer, da Embrapa Soja, diz que agora vão surgir vários trabalhos relacionados ao assunto, inclusive no exterior.

O pesquisador afirma, no entanto, que poderá haver uma especulação desenfreada, com sugestões e vendas de "qualquer coisa" para o combate dessa doença.

Essa descoberta é a ponta do "iceberg". Já as medidas de controle vão exigir muitos estudos, segundo os pesquisadores.

Para eles, um dos pontos básicos será a adoção de novas formas de manejo. A soja louca se desenvolve em áreas com intensidade maior de chuva e de temperaturas elevadas. Essas condições são encontradas no Maranhão, no Tocantins, no Pará e no norte de Mato Grosso.

ÁGUA

O nematoide necessita de água para se mover, e nessas regiões há uma incidência maior de chuvas no período do plantio da soja, explica Meyer.

Uma das saídas para o combate ao nematoide é o gradeamento da área antes do plantio. Essa prática não é recomendada, no entanto, pelos pesquisadores.

Remover a terra é bom para o combate dos nematoides que atacam a planta na parte aérea, mas também espalha os de solo por uma área maior do terreno.

Além disso, para resolver um problema imediato, o produtor perde os benefícios de uma sustentabilidade futura, segundo os pesquisadores.

A chegada da soja RR pode ter auxiliado o desenvolvimento da soja louca. Mas o problema não é a nova tecnologia, mas a mudança de hábito dos produtores, que "ficaram mais tranquilos com o mato na lavoura".

Essa vegetação traz condições favoráveis para o desenvolvimento do nematoide. Para evitar esse ambiente favorável à doença, Meyer recomenda que os produtores façam a dessecação das pragas dez dias antes do plantio.

Os estudos dessa anomalia na soja ocorrem desde os anos 1970, quando se atribuíam como causas ácaros e vírus. Essas hipóteses, no entanto, foram descartadas, aponta o pesquisador da Embrapa.

Fonte: Folha

Vaivém das Commodities

Por Mauro Zafalon

Vaivém das Commodities

Mauro Zafalon é jornalista e, em duas passagens pelaFolha, soma mais de 38 anos de jornal. Escreve sobre commodities e pecuária. Escreve de terça a sábado.