Vaivém – Para agronegócio, impeachment deveria ser de todo o sistema político

Colheita de milho no Paraná 20.07.2014 Mauro Zafalon/Folhapress

Colheita de milho no norte do Paraná; safra 2015/16 poderá ficar em 89 milhões de toneladas, prevê consultoria

O agronegócio vive um paradoxo. Ele quer que Dilma Rousseff apeie o quanto antes da Presidência, mas, pelo menos no curto prazo, poderá sofrer as consequências dessa saída.

Uma eventual consumação do impeachment poderá trazer um cenário melhor para a economia. Se isso ocorresse, o preço do dólar recuaria, tornando as negociações das commodities menos favoráveis em reais.

E o setor vive atualmente por causa do dólar. A alta da moeda norte-americana ocorrida nos meses recentes compensou a queda de preços internacionais das commodities em Chicago, a principal Bolsa do setor.

O perigo Dilma são as incertezas que ela traz para a economia, segundo Anderson Galvão, especialista no setor do agronegócio.

Na avaliação dele, os preços atuais da soja de US$ 8,50 a US$ 9 necessitam de um dólar acima de R$ 3,50 para dar liquidez aos produtores.

Com um dólar abaixo desse patamar, é necessária uma alta de preços da soja em Chicago para compensar o aumento dos custos dos insumos provocado, em parte, pelo próprio dólar.

Glauber Silveira, ex-presidente da Aprosoja (entidade que representa os produtores de soja), é mais cético.

"A mudança de apenas uma pessoa [a da presidente Dilma Rousseff] não resolve nada. Precisamos de um impeachment de todo o sistema político brasileiro."

O setor do agronegócio quer mudança de atuação de governo. "Se a Dilma sair, vai ocorrer alguma mudança com o Michel Temer? O problema do Brasil não é a presidente, mas o sistema."

Segundo ele, o país já deveria ter feito o impeachment dos presidentes anteriores. O país deixaria de ter partidos que servem apenas para negociatas, acrescenta.

Silveira não ataca apenas o sistema político brasileiro, mas o de outras corporações que se perpetuam no poder, inclusive as do agronegócio.

Para ele, o agronegócio, assim como o país todo, precisa de políticas sérias e adequadas para gerar investimentos, que vão desde a produção até a infraestrutura.

O setor do agronegócio não está satisfeito com o que está aí. São necessárias mudanças, inclusive do sistema, para que as novas pessoas tenham representatividade para fazer as mudanças, afirma.

Em um ambiente atual de custos mais elevados, o Brasil vai encontrar pela frente uma concorrência ainda maior dos demais produtores agrícolas. Essa concorrência virá também da vizinha Argentina, cujo novo presidente promete uma retirada
gradual dos impostos do setor.

Além disso, a produção de grãos avança nos EUA, na Europa e na América do Sul, derrubando preços.

Quanto aos efeitos do dólar, Silveira concorda com Galvão. Mas a queda diminuirá os custos do produtores endividados em dólar, afirma.

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Milho A produção em 2015/16 fica em 87,5 milhões de toneladas, prevê a Céleres. Já a Safras & Mercado estima 89,3 milhões. Anderson Galvão, da Céleres, diz que o atraso no plantio da soja poderá fazer o milho perder a janela ideal em alguma regiões.

Boi A arroba subiu para R$ 149 no noroeste de São Paulo nesta sexta-feira (5), conforme acompanhamento de preços da Informa Economics FNP. A alta é de 0,7% no dia e de 3,5% em 12 meses.

Etanol Os preços mantêm alta nas bombas dos postos da cidade de São Paulo. Pesquisa da Folha apurou R$ 2,553 por litro do combustível na média dos 50 postos acompanhados semanalmente. Em 30 dias, a alta acumulada é de 7,9%.

Clima adverso A produção gaúcha de trigo caiu parfa 1,5 milhão de toneladas neste ano, 56% menos do que em 2014. A produtividade média recuou para 1.693 quilos por hectare, 19,5% menos. Os dados são da Emater/RS.

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Apesar do El Niño, safra de soja pode ser de 100 mi de t

Foi divulgada mais uma série de dados sobre a safra brasileira de soja de 2015/16 nesta semana. A produção pode superar, pela primeira vez, 100 milhões de toneladas.

Apesar dos efeitos do El Niño, as estimativas da Céleres apontam para 101,9 milhões de toneladas no período. A Safras & Mercado também aponta para 100 milhões.

Já a AgRural, que indicava no mês passado um volume superior a 100 milhões, reduziu a estimativa para 99,7 milhões nesta sexta-feira (5). A agência espera produtividade menor em Mato Grosso, mas recuperação no Sul e em Mato Grosso do Sul.

A Abiove (associação das indústrias) estima uma safra de 98,6 milhões de toneladas.

Por Mauro Zafalon

Vaivém das Commodities

Mauro Zafalon é jornalista e, em duas passagens pelaFolha, soma mais de 38 anos de jornal. Escreve sobre commodities e pecuária. Escreve de terça a sábado.

Fonte : Folha