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Gigante dos fertilizantes diz que agricultura é exceção na crise do país e anunciainvestimentos

Lair Hanzen, presidente da Yara no Brasil

A agricultura é um dos setores menos afetados pela crise econômica e política no Brasil, uma "ilha" no meio das turbulências. A avaliação é de Svein Tore Holsether, presidente mundial da Yara, uma das maiores empresas de fertilizantes do mundo.

"A menos que haja um grande problema no mundo, a agricultura brasileira vai continuar indo bem", disse em entrevista à Folha.

Holsether está no Brasil para concretizar mais um investimento no setor. A empresa norueguesa, que investiu mais de US$ 1 bilhão no país nos últimos três anos, despende mais US$ 41,4 milhões em uma nova unidade voltada à produção de fertilizantes foliares e micronutrientes em Sumaré, no interior de São Paulo. A fábrica será a primeira voltada a essa linha de produtos fora da Europa.

O Brasil é o principal mercado para a Yara, ao representar 33% das vendas mundiais da empresa. Também tem papel importante na estrutura de produção da multinacional, que tem um terço dos funcionários no país.

Apesar da alta exposição ao cenário econômico brasileiro, o executivo demonstrou tranquilidade em relação aos problemas atuais. "Vemos o setor agrícola muito forte no Brasil, mesmo que haja uma volatilidade de curto prazo no mercado. Quando viemos para o país, era para um período muito longo."

Segundo ele, a instabilidade não atrapalha as decisões da empresa para o longo prazo. "Não ficamos desmotivados temporariamente por causa de situações de mercado. Em 110 anos de história, já passamos por muitos desafios econômicos em vários dos países onde trabalhamos."

O executivo ressalta, no entanto, que ter previsibilidade na regulação e na tributação é muito importante para a empresa, pois o retorno das operações no setor só acontece entre dois e três anos.

Mais acostumado aos problemas locais, o presidente da Yara no Brasil, Lair Hanzen, disse que "o Brasil está passando por uma cirurgia".

Ele reconhece que os desafios não são fáceis e que "talvez a coisa ainda tenha de ficar um pouco pior antes de melhorar". Mas acredita que o desarme da corrupção feito hoje no país proporcionará um futuro melhor.

"Não é fácil, não vai ser rápido. Mas acho que o Brasil vai sair melhor disso e, provavelmente, um pouco mais sustentável", afirma.

Danilo Verpa/Folhapress

Svein Tore Holsether, presidente mundial da Yara

DEMANDA CRESCENTE

Os executivos consideram que a demanda por alimentos e a vocação do país para a agricultura vão continuar garantindo crescimento do consumo de fertilizantes no Brasil acima da média global.

Nos últimos 20 anos, esse mercado cresceu 6% ao ano no país, mais que o dobro do que a média mundial.

Os produtos disponíveis, no entanto, não devem sofrer uma revolução como vimos no passado recente. As pesquisas, segundo Hanzen, buscam "produzir mais com menos". A crescente preocupação com a preservação do ambiente tem guiado o desenvolvimento de produtos.

"Não dá para desassociar a agricultura do desafio climático", afirmou Holsether, que esteve com a delegação norueguesa na COP 21, a conferência do clima da ONU, nesta semana, em Paris.

Segundo ele, a agricultura representa 35% das emissões de gases de efeito estufa. Metade delas, acrescenta, é resultado de desmatamento e de mudanças no uso da terra. "É importante apresentar soluções para usar áreas existentes para a produção de alimentos, e a indústria de fertilizantes tem um papel importante nesse sentido."

Presente no Brasil desde 1970, a empresa fortaleceu sua posição no país em 2000, com a aquisição da Adubos Trevo. Na sequência, vieram Fertibrás e a divisão de fertilizantes da Bunge. Em 2014, adquiriu 60% da Galvani.

A predisposição para novas compras continua. "Na Yara sempre estamos procurando oportunidades de crescimento", diz. Essa expansão pode ocorrer tanto por investimentos nas instalações atuais como por aquisições.

COM TATIANA FREITAS

Por Mauro Zafalon

Vaivém das Commodities

Mauro Zafalon é jornalista e, em duas passagens pelaFolha, soma mais de 38 anos de jornal. Escreve sobre commodities e pecuária. Escreve de terça a sábado

Fonte : Folha