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Usinas de São Paulo avançam para banir queimada no campo

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Ediane Tiago/valor / Ediane Tiago/valor
Ricardo Bergamasco: para aumentar a renda, ele decidiu dedicar parte de seu tempo ao curso de mecânico da usina

Nos últimos cinco anos, a indústria do etanol sofreu uma transformação que já pode ser sentida no ar. O avanço da mecanização nas lavouras de cana reduziu as queimadas e aliviou os centros produtores da chamada "neve negra", formada por flocos de cinzas que se espalham com o vento durante o inverno. A colheita da cana crua é benéfica para o ambiente, proporciona melhores condições para os trabalhadores rurais, preserva o solo e estica o prazo para renovação dos canaviais.

Transferir o trabalho manual para o mecanizado exigiu investimentos e disciplina para quebrar o paradigma da cultura. "Foram 500 anos de queimadas. A cadeia produtiva teve de aprender a trabalhar com a planta crua", lembra Daniel Lobo, assessor da área de responsabilidade ambiental e corporativa da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica).

No Estado de São Paulo, o uso das colhedeiras ganhou força com a assinatura, em 2007, de um protocolo agroambiental pelos produtores. Os signatários respondem por 90% da produção estadual, ou 50% da nacional de etanol. O documento estipula que a queima é permitida nas áreas mecanizáveis até 2014, e nas áreas não mecanizáveis (com declive superior a 12%), até 2017.

Desde então, a evolução é medida pela Secretaria Estadual de Meio Ambiente (SMA). De acordo com o órgão, na safra 2011/2012, do total colhido, 65,2% corresponderam à cana crua. Esse índice indica que as usinas já cortaram 82% em área mecanizável sem queima – a meta era de 70%. Com o avanço, a lavoura economizou água e reduziu a emissão de gases. Balanço da SMA mostra que 16,7 milhões de toneladas de poluentes (monóxido de carbono, hidrocarbonetos e material particulado) e mais de 2,7 milhões de CO2 deixaram de ser lançados na atmosfera.

O bom resultado deve-se ao fôlego das usinas que aplicaram, nas contas da Unica, cerca de R$ 3 bilhões em equipamentos de colheita (somando colhedoras, transbordos e tratores) nos últimos cinco anos, período no qual a frota de colhedoras, estimada em 753 na safra 2006/2007, saltou para 2.890. Para atingir o patamar de 100% de mecanização, os investimentos ainda devem continuar acelerados. Lobo acredita que serão necessários entre R$ 3 e 4 bilhões para compra de máquinas e formação de recursos humanos para zerar a queima. A sistematização da lavoura e a de mão de obra são custos embutidos no processo. O maior desafio, na opinião do assessor, está na inclusão dos fornecedores de cana às usinas – em geral propriedades de menor porte e que não conseguem investir em máquinas. "Para áreas pequenas, o custo de compra é muito alto. É preciso estabelecer uma política pública eficiente para garantir que a mecanização chegue em toda a plantação", argumenta.

O custo médio de uma colhedeira está em R$ 800 mil, criando barreiras para os pequenos produtores. Além da cortadora de cana, é preciso agregar tratores e transbordos, ampliando a frota. Tanto que, no balanço da SMA, os fornecedores de cana deveriam chegar a 30% de automação nas áreas mecanizáveis na safra 2011/2012, mas chegaram a menos de 25%.

Uma solução está na utilização do equipamento em sistema de cooperativa, ou de condomínio, como apelidou a secretaria, permitindo a utilização de um conjunto de máquinas para colheita em diversos produtores. "Outra solução é terceirizar o corte, por meio da contratação de empresas especializadas", lembra Luis Carlos Veguin, diretor de recursos humanos para as áreas de etanol, açúcar e bioenergia da Raízen.

Na nova fronteira da cana, que avançou sobre os Estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás, a mecanização é um dado que chegou junto com a cultura. Genésio Lemos Couto, diretor de pessoas e organização da ETH Bionergia, explica que os novos empreendimentos não contam com o corte manual. "Mesmo em ativos adquiridos, já conseguimos mudar a realidade e temos, nas nove unidades, 100% de colheita mecanizada. Também utilizamos máquinas para o plantio", afirma. A ETH investiu R$ 8 bilhões em construção e ampliação de unidades.

O Grupo São Martinho apostou na mecanização mesmo antes da legislação. A grande motivadora foi a greve ocorrida em 1984 na região de Ribeirão Preto (SP), que parou as moendas e afetou os negócios do grupo. "A melhora das condições de trabalho e a modernização da lavoura tornaram-se imperativas a partir da paralisação", conta Agenor Cunha Pavan, superintendente agroindustrial da Usina São Martinho. Hoje, a média de mecanização do grupo é de 85,7% e deve chegar a 100% até 2014. A frota é composta por 89 colhedoras, 151 tratores e 266 transbordos.

Enquanto no Centro-Sul, o desafio é incluir as propriedades de menor porte, no Nordeste é lidar com os terrenos acidentados, que dificultam a mecanização. De acordo com Renato Cunha, presidente do Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool no Estado do Pernambuco (Sindaçucar), apenas 5% da lavoura de cana pernambucana está mecanizada. " Nossa alternativa está no desenvolvimento tecnológico."

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Fonte: Valor | Por Ediane Tiago | Para o Valor, de Ribeirão Preto