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União Química aposta em hormônio natural

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Ruy Baron/Valor
Fernando de Castro Marques, da União Química: meta é elevar oferta doméstica

A União Química Farmacêutica Nacional, empresa de capital 100% nacional cuja receita líquida consolidada somou R$ 580,7 milhões em 2013, segundo o anuário "Valor 1000", decidiu ampliar seus negócios na área de saúde animal com a produção de um hormônio natural que promete elevar em até 25% a produção de leite em gado bovino.

Liberada no Brasil pelo Ministério da Agricultura desde 2012, a substância somatotropina bovina (BST) é produzida naturalmente pelas vacas e pode ser reproduzida em laboratório com a tecnologia do DNA recombinante (rBST). O BST é comercializada em mercados como o americano desde os anos 1970, mas é vetada na União Europeia, no Canadá, no Japão, na Nova Zelândia e na Austrália, entre outros países, por causa de suspeitas não comprovadas de que pode afetar a saúde dos animais.

Até agora, todo o volume de BST vendido no Brasil, relativamente pequeno, é importado e distribuído por duas empresas: MSD, braço veterinário da farmacêutica Merck, e Elanco, controlada pela Eli Lilly. Tanto Merck quanto Eli Lilly são companhias fundadas e sediadas nos EUA.

Segundo o presidente da União Química, Fernando de Castro Marques, foi justamente a baixa penetração do BST na pecuária de leite brasileira que motivou a empresa a apostar nesse mercado para ampliar seus negócios em saúde animal, que atualmente representam 20% das vendas. "Nossa intenção é aumentar a oferta no mercado interno, onde, atualmente, apenas 3% do rebanho leiteiro aplica o hormônio", disse ele ao Valor. "Mas também temos grande oportunidade de exportar para países nos quais o BST é liberado".

Para estimular o uso do produto, a União Química pretende inclusive oferecer assistência técnica aos pecuaristas interessados. A companhia já consultou o Ministério da Agricultura sobre o registro do hormônio e investiu US$ 4 milhões, em parceria com uma companhia sul-coreana, em uma linha de produção específica para ele. A expectativa é que sejam fabricadas 1,2 milhão de doses do BST por ano.

Mas, para iniciar de fato a produção, a União Química ainda precisa concluir a ampliação de uma fábrica no Distrito Federal – projeto que já recebeu US$ 60 milhões em investimentos e deverá estar concluído até o fim de 2015 – e efetivamente obter o registro necessário no ministério, o que não deverá acontecer antes do segundo semestre de 2017.

Apesar de ser liberado no Brasil, no meio científico há restrições ao produto. Marcos Vinícius Barbosa, pesquisador da Embrapa Gado de Leite, de Juiz de Fora (MG), lembra que, nos EUA, a FDA descartou que o uso do hormônio gere problemas para a saúde tanto humana quanto animal, mas recomenda que os pecuaristas se cerquem de uma série de cuidados técnicos. Barbosa também nota que um estudo recente sobre fármacos usados na pecuária leiteira indica que, para haver aumento da produção de leite com o BST, é preciso ampliar a nutrição do animal.

"Até hoje também não se sabe quais os efeitos do hormônio para a reprodução do animal e se algumas doenças são associadas exclusivamente ao uso de BST", afirma.

Flávio Henrique, chefe do Departamento Técnico do Senar de Goiás, que ministra cursos técnicos para profissionais que trabalham em fazendas de gado leiteiro, argumenta que, além de avaliar o preço do produto – cada aplicação custa entre R$ 12 e R$ 18, despesa considerada alta dependendo do tamanho do rebanho -, o produtor precisa monitorar se o animal tem uma genética apropriada para uma elevada produção de leite e se está totalmente livre de doenças.

Outros críticos da utilização do produto dizem, ainda, que o rebanho pode ficar mais suscetível a doenças. Entre pecuaristas, há tanto ceticismo quanto entusiasmo com a possibilidades de aumento da oferta do hormônio no mercado.

Para Jorge Rubez, produtor de leite e presidente da Leite Brasil, entidade que reúne cerca de 30 mil produtores, a aplicação do BST no Brasil está atualmente restrita a fazendas de grande porte em que há alta produção diária de leite. Isso, segundo ele, porque o custo inviabiliza o uso por pequenos produtores. Ele também afirma que a maioria dos pecuaristas de leite não conhece o hormônio e que "não há informação confiável no mercado". "Quando o preço do litro de leite está baixo, inferior a R$ 1,20 o litro, como nos dias de hoje, não compensa usar hormônio no rebanho", analisa Rubez.

Segundo ele, o hormônio é recomendado para vacas de alta lactação, como as holandesas. Todavia, essa raça representa apenas 20% do rebanho de gado leiteiro brasileiro. "Quem é grande, tem vacas especializadas, que produzem acima de 25 litros de leite. Já quem tem vacas mestiças, que produzem, em média, 6 litros, não está disposto a pagar por um produto caro e forçar seu animal a render algo que não vai render", afirma.

Já Elizabeth Junqueira, pecuarista em Casa Grande, Minas Gerais – Estado que lidera a produção nacional de leite -, usa o BST há mais de um ano, em um rebanho responsável por 1,3 mil litros por dia, e diz que, bem aplicado, o hormônio traz ganhos consideráveis de produtividade. "Como produtora e veterinária, considero o produto uma ótima ferramenta para aumentar a produção. Mas a vaca precisa ter potencial de resposta e estar com a saúde em perfeitas condições".

Segundo ela, o BST começou a ser usado no Brasil em vacas holandesas, mas atualmente também há resultados práticos eficientes em animais mestiços. "Como as mestiças têm baixa persistência de lactação – isto é, dão leite durante pouco tempo – e o BST consiste em segurar a produção [de leite] da vaca no pico, todo criador de mestiça também quer usar o BST. Com isso elas produzem leite por mais tempo", diz.

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Fonte: Valor | Por Cristiano Zaia | De Brasília