.........

Uma terra fértil para o avanço da tecnologia

.........

Erico Verissimo foi, na opinião da maior parte dos críticos literários, o escritor que melhor descreveu a derrocada dos caudilhos gaúchos, grandes criadores de gado obsoletos e que por mais de um século dominaram parte do interior do Rio Grande do Sul. Por isso, não deixa de ser curioso que a região onde se encontra Cruz Alta, sua cidade natal, desponte hoje como um dos maiores polos tecnológicos do país na área agrícola. É em Não-Me-Toque, a pouco mais de 100 quilômetros de Cruz Alta, que fica a sede da Stara, fábrica nacional de máquinas e implementos agrícolas para agricultura de precisão. São equipamentos que, utilizando modernos softwares associados a sistemas de navegação por GPS, permitem a aplicação de sementes, defensivos, nutrientes e fertilizantes em quantidades exatas para as necessidades de cada palmo de uma lavoura.

O faturamento da Stara é um dos melhores termômetros da disseminação da agricultura de precisão. Nos últimos cinco anos, sua receita passou de 62 milhões de reais para 550 milhões. Com o ganho de escala e o aumento do número de fabricantes em todo o mundo, o uso de equipamentos de agricultura de precisão ficou mais acessível. Hoje, a parte inteligente das máquinas agrícolas, computadores de bordo que permitem o melhor uso de produtos e da terra, pode ser adquirida por cerca de 10 000 dólares, um décimo do valor cobrado no ano 2000 por um equipamento equivalente importado. "A demanda por novas soluções no campo não para de crescer. Metade do nosso faturamento vem de produtos lançados nos últimos três anos", diz Gilson Trennepohl, diretorpresidente da Stara. Neste ano, a empresa deu início à sua internacionalização firmando uma parceria com a argentina Pauny. Com o acordo, passa a fabricar pulverizadores em Córdoba em maio de 2012 e tratores em uma nova fábrica em Não-Me-Toque em 2014. A Stara já é uma das principais fabricantes de máquinas agrícolas no Brasil, ao lado de multinacionais como John Deere e a paulista Jacto. Aproximadamente 20% dos pulverizadores motorizados vendidos no país, por exemplo, são produzidos pela marca e vendidos a cerca de 500 000 reais.

A produtividade da soja de algumas fazendas passou de 1500 para 3900 quilos por hectare em sete anos

A presença da Stara, assim como a realização de uma das feiras mais importantes do agronegócio no Brasil, a Expodireto Cotrijal, que acontece em Não-Me-Toque há l2 anos, rende à cidade o título de capital da agricultura de precisão. Neste ano, a Expodireto, que tem hoje a agricultura de precisão como seu principal tema, reuniu 300 expositores e recebeu mais de 160 000 visitantes, de 53 países.

Não por acaso, as lavouras de soja das áreas mais avançadas do noroeste gaúcho, onde estão Cruz Alta e NãoMe-Toque, tiveram um expressivo salto de produtividade recentemente, resultado do uso progressivo do plantio direto, de sementes transgênicas e, claro, máquinas de precisão. Nas fazendas mais produtivas, como as do engenheiro agrônomo Armindo Mugnol, no município de Tupanciretã, a produtividade saiu de cerca de 1500 quilos de soja por hectare em 2004 para 3900 quilos por hectare na atual safra. "A evolução dos produtores é notável. As condições climáticas são as mesmas. O que mudou, de forma exemplar, foram as práticas de plantio", diz André Nassar, diretor-geral da consultoria Icone Brasil.

De certo modo, a fatia mais pujante do noroeste gaúcho parece uma ilha. Nos últimos dez anos, a região cresceu num ritmo que foi o dobro do registrado no Rio Grande do Sul como um todo. Esse resultado também é reflexo de uma onda de investimentos. Em 2007, a Central de Cooperativas Gaúchas do Leite, mais conhecida pela sigla CCGL, inaugurou em Cruz Alta uma das mais modernas fábricas de leite em pó do país. Desde então, os investimentos de diversas empresas na cidade somam 230 milhões de reais.

A chegada de novas empresas e expansões das existentes estão aumentando a renda e gerando uma competição pela mão de obra. Estima-se que, nos últimos quatro anos, mais de 300 vagas de nível gerencial foram criadas só em Cruz Alta, cuja população é de 63000 habitantes. São postos de trabalho que pagam salários entre 3000 e 6000 reais. O aumento da renda atraiu novos negócios, e a arrecadação de impostos na cidade passou de 42 milhões de reais, em2005, para 82 milhões de reais, em 2011. Em Não-MeToque, boa parte dos trabalhadores vem de fora da cidade. Todos os dias, vários ônibus levam cerca de 1000 pessoas para trabalhar em grupos como a Cotrijal, uma central de cooperativas que, além de vender GRÃOS, possui supermercados e lojas de ferragens negócios que faturam, juntos, 820 milhões de reais.

Fonte: EXAME | Luciene Antunes, de Não-me-toque | Região 4 | Noroeste Gaúcho