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Uma revolução agroindustrial no horizonte?

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Divulgação / Divulgação
Linha de produção de carne de frango em abatedouro de Santa Catarina

De todos os efeitos que a rápida ascensão da China tiveram sobre a economia mundial na última década, a alta dos preços dos alimentos e de outras matérias-primas é, certamente, um dos que mais despertam a atenção dos economistas. Em poucos anos, muitas commodities ficaram duas ou três vezes mais caras do que no início dos anos 2000. E, apesar dos revéses sofridos após o estouro da crise financeira americana, em 2008, e do agravamento dos problemas europeus, nos últimos meses, os preços se mantêm bem acima das médias históricas.

Poucos estudiosos acreditam se tratar de um movimento de curto prazo. Pelo contrário, para a maioria, a escalada dos últimos anos parece sepultar de vez a era das matérias-primas baratas, uma das bases que sustentaram o crescimento econômico durante o século 20. Agora, economistas de várias tendências se veem obrigados a repensar as questões relacionadas aos recursos naturais e ao desenvolvimento econômico dos países produtores de commodities. E, como nunca, dispostos a questionar dogmas como a disseminada "maldição dos recursos naturais". Afinal, é possível para países como o Brasil se desenvolver a partir de setores como a agricultura?

Talvez em poucos períodos na história capitalista, tantos estudiosos do desenvolvimento econômico estivessem tão propensos a responder positivamente a essa pergunta. A economista venezuelana Carlota Perez, pesquisadora da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, é um deles. "As condições estão mudando. Precisamos de teorias que sejam capazes de explicar essas mudanças e lidar com as possibilidades que elas abrem", afirma. Embora tenham oferecido poucas oportunidades no passado, pondera Perez, as indústrias baseadas em recursos naturais e seus mercados consumidores estão se tornando sensivelmente mais dinâmicos. E, em vez de uma maldição, podem se tornar "a base para uma estratégia de desenvolvimento tecnológico e sustentável".

Diante do crescimento de países como EUA, Canadá, Austrália e Brasil, economistas do século 19 consideravam a abundância de recursos naturais como terra e água um forte indutor do desenvolvimento. Mas essa visão mudou radicalmente durante as décadas de 1950 e 1960. Desde então, a especialização em matérias-primas passou a ser vista como um entrave ao crescimento, à inovação e à geração de empregos, além de um fator de desequilíbrio das contas externas. Agora, a discussão parece novamente propensa a uma mudança de eixos. "Ainda não há um consenso, o tema suscita polêmicas, mas é evidente que houve uma mudança estrutural na economia mundial com a presença da China", afirma Fernando Sarti, diretor do Instituto de Economia da Universidade de Campinas (Unicamp).

  

Se o "século americano" foi caracterizado pela queda relativa dos preços das commodities em relação aos produtos industrializados, de maior valor agregado (o que motivou, em boa parte, a crítica contra a especialização em recursos naturais), o "século chinês" sinaliza uma inversão, com produtos industrializados cada vez mais baratos e "commoditizados" em relação aos produtos baseados em recursos naturais. A própria globalização fez com que o debate entre indústria e commodities, tal como colocado no século passado, perdesse o sentido. "As pessoas ainda pensam na indústria de 40 anos atrás, que era toda integrada, mas o processo fragmentou-se. Não é simples responder onde um iPhone é fabricado e muito difícil afirmar quem é que está, de fato, agregando e capturando seu valor", exemplifica.

O mesmo raciocínio aplicado ao telefone esperto da Apple poderia ser estendido a um carregamento de soja. A produção agrícola, pondera o acadêmico, envolve tecnologias de ponta nas áreas de biotecnologia e química fina. "Mas aí me debruço sobre a cadeia de valor e me pergunto: quem está desenvolvendo as novas sementes e os defensivos? Onde esses bons empregos estão sendo criados? Quem está capturando a margem na comercialização e quem está processando o produto? No caso da soja, parece que ficamos apenas com a produção, o que é pouco", afirma. Sarti pondera, porém, que setores como o sucroalcooleiro e, principalmente, o de carnes, conseguiram dar um passo à frente. "Especialmente no caso das carnes, passamos a dominar toda a cadeia de produção e comercialização", afirma.

"O Brasil tem problemas de encadeamento. Ainda não conseguimos dar o salto da soja para o óleo, do gás natural para o fertilizante, da mineração para a siderurgia e do petróleo para os produtos refinados", afirma Carlos Frederico Rocha, professor de economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Segundo ele, países como a Suécia e Austrália conseguiram, com base em sua competitividade em recursos naturais, desenvolver e dinamizar toda a sua economia. "O problema não está no produto, mas na sua capacidade de inovar nos processos", sustenta.

Nesse sentido, uma gama de novas oportunidades pode surgir para países como o Brasil, diante do crescimento de potências como China e Índia, com suas centenas de milhões de habitantes em rápida ascensão econômica, prestes a exercer uma pressão possivelmente sem precedentes sobre a oferta de produtos primários, em um cenário marcado pela escassez de terras agricultáveis e água e ameaçado pelas mudanças climáticas.

Para fazer frente a essa demanda, calcula a McKinsey, será necessário mais que dobrar a taxa anual de expansão na oferta de água e mais que triplicar a de terras agricultáveis – em relação às taxas observadas nas últimas duas décadas. Ao fim do período, o consumo global de água terá crescido 30% e o avanço das lavouras terá consumido até 175 milhões de hectares de florestas – um custo que o planeta não parece mais disposto a suportar.

"Por causa das restrições ambientais e de uma possível escassez de água, energia e alimentos, há uma pressão crescente sobre a ciência e a tecnologia para desenvolver novos materiais, aumentar a produtividade dos recursos, desenvolver embalagens biodegradáveis e melhorar o conteúdo nutricional dos alimentos", afirma Perez.

Para ela, a agricultura, assim como outros setores primários, começa a se colocar no centro de um ciclo inédito de investimentos em inovação, que pode culminar numa revolução tecnológica com consequências tão expressivas como o desenvolvimento das linhas de produção fordistas ou do microprocessador e da fibra ótica. "A próxima revolução provavelmente será uma combinação entre biotecnologia, nanotecnologia e novos materiais, os três setores de tecnologia de ponta mais relacionados com recursos naturais".

A pesquisadora aposta que a competição por acesso às matérias-primas criará condições mais vantajosas para que os países produtores sejam também os responsáveis por seu processamento. "Além disso, os altos custos de energia vão deixar o transporte muito caro, de modo que fará muito mais sentido agregar valor na origem".

Fonte:  Valor | Por Gerson Freitas Jr. | De São Paulo