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Um sistema que faz parte da identidade gaúcha

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Estado sediou a primeira cooperativa da América Latina

O Rio Grande do Sul nasceu de uma experiência de cooperação. Foi no início do século 17, quando jesuítas agruparam milhares de índios guaranis nos limites das reduções e fundaram um modelo social em que o Tupambaé Terra de Deus era propriedade coletiva. Todos produziam e desfrutavam da fartura. A ruína das Missões, no entanto, não sepultou o ideal. Um século e meio depois, um grupo de agricultores juntou economias para fundar a primeira cooperativa da América Latina. Com as lições da história, o cooperativismo gaúcho é modelo no país ao unir bem coletivo à gestão modelo, eficiência e competitividade.
– Somos a maior organização não-governamental do Rio Grande – afirma o presidente da Organização das Cooperativas do Estado do Rio Grande do Sul (Ocergs), Vergilio Perius.
Ele destaca o papel do cooperativismo ao garantir trabalho e remuneração a quem, fora desse modelo, não conseguiria competir com empresas privadas convencionais. O resultado é um sistema forte, que deteve 11,3% do PIB gaúcho no ano passado – o equivalente a R$ 27 bilhões. E sem isenção fiscal para o que é produzido. Outro diferencial das cooperativas, aponta Perius, é a função social de garantir renda aos associados com eficiência e transparência.
Fundada em Nova Petrópolis com esse foco em 1902, a primeira cooperativa da América Latina nasceu da necessidade de crédito de um grupo de agricultores para financiar as lavouras. O padre da localidade, Theodor Amstad, trouxe a novidade da Europa. Os colonos confiaram, o padre redigiu a ata da fundação e depositou cem mil réis. Em dezembro de 1903, o maior montante já liberado, um milhão de réis, foi emprestado à Comunidade Evangélica de Nova Petrópolis para a construção da igreja.
Começava assim a trajetória da Sicredi Pioneira, hoje uma das 119 entidades ligadas ao Sistema Sicredi, maior cooperativa de crédito da América Latina. Apesar de a competição com instituições tradicionais ter exigido a criação de produtos para vários públicos, a necessidade de transparência é regra imutável. Afinal, cada sócio é um proprietário.
– Na origem, a cooperativa só comprava e vendia dinheiro. Hoje, temos seguros, consórcios, cartões e fundos de investimento. Tudo para ser competitivos – destaca Márcio Port, atual presidente da Sicredi Pioneira.
Em 2011, 60% das sobras – R$ 13 milhões – foram devolvidas aos 75 mil associados. É como se o lucro de um banco fosse repartido com os clientes. O restante foi para o fundo de reserva, que é a segurança da cooperativa e serve para fazer investimentos. E continuar crescendo.
Solo fértil para a eficiência na gestão

O agronegócio parece o setor cooperativo por excelência, já que muitas entidades bem-sucedidas vêm do campo. Exemplo: um grupo de produtores de trigo precisou se unir para obter melhores condições de armazenagem, há 57 anos.
O que era pequeno tornou-se a Cotrijal, uma das mais importantes cooperativas agrícolas do país, responsável pela Expodireto, feira de agronegócio que comercializou R$ 1,1 bilhão em março deste ano.
No entanto, o presidente, Nei Mânica, faz questão de frisar que a Cotrijal é bem mais do que a Expodireto.
– Nosso principal desafio é prestar um bom serviço ao associado, para que ele seja fiel e participativo – destaca Mânica.
Para isso, a entidade conta com 42 agrônomos e cinco veterinários, além de manter contato direto com todas as unidades nos 14 municípios em que está presente.
A diretoria da cooperativa visita todos eles, pelo menos uma vez por ano, ao mesmo tempo em que trabalha para a profissionalização da gestão. Atualmente, a Cotrijal tem 1,1 mil funcionários, 5,3 mil associados e atua nos setores de grãos (milho, trigo, soja e cevada), suínos e leite, com sede na cidade de Não-Me-Toque.
– Os resultados da Cotrijal , assim como a Expodireto, são resultado do estudo dos modelos de cooperativa em todo o mundo e do investimento em profissionalização da gestão. Somente assim conseguimos obter o resultado social sem perder a competitividade – completa o presidente.
A Cotrijal promove a formação constante de 156 líderes nas 52 localidades em que há sócios.
União de quem já está unido

A Rede Transporte conta com uma frota de 2,1 mil veículos
Apenas agrupando-se em cooperativas os operadores de transporte de cargas não estavam obtendo os resultados esperados. As discussões sobre uma possível integração de cooperativas no ramo de transportes de cargas começou em 2004, mas só se tornou realidade sete anos depois. Nascia, assim, a Rede Transporte, que congrega oito cooperativas gaúchas.
Com sede em Arroio do Meio e uma diretoria espalhada pelo território gaúcho, a Rede Transporte ilustra uma tendência do cooperativismo moderno: intercooperação entre entidades para obter resultados melhores e fazer frente às concorrentes do setor privado. O presidente Abel Paré observa que a principal prioridade é a aquisição coletiva de insumos com preços que se tornammais convidativos à medida que aumentam os volumes de compra do grupo.
A capacitação dos associados, tanto para prestação dos serviços como para gestão das cooperativas, é outro foco. Para isso, são feitos cursos e criados grupos técnicos de qualificação. Por fim, vem a gestão logística para a prestação do serviço.
– Para que esse modelo funcione, todos precisam derrubar as visões individualistas e perceber que os melhores resultados serão obtidos em conjunto – completa Paré.

Fonte: Zero Hora