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Um IPO de US$ 500 milhões que ficou inviável

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Eraldo Peres / AP

Era para ser um dos IPOs mais concorridos da Bolsa de Valores de Nova York neste ano, mas a abertura de capital da JBS Foods International está praticamente descartada após a delação dos donos da companhia no Brasil, os irmãos Joesley e Wesley Batista.

Segundo fontes do mercado ouvidas pelo Valor, a subsidiária da JBS não deverá reunir as condições necessárias para abrir o capital nos Estados Unidos após as revelações de envolvimento no pagamento de propinas a políticos no Brasil e a consequente queda de suas ações no mercado local.

Em dezembro passado, a JBS informou à Securities Exchange Commission (SEC, órgão equivalente à CVM) uma estimativa inicial de US$ 500 milhões para a movimentação das ações da JBS Foods International na data da realização do IPO. O anúncio foi comemorado no mercado americano, pois a empresa é a maior produtora de carne do mundo, com receita anual de R$ 170 bilhões. Três meses depois, após a Operação Carne Fraca, o processo foi suspenso. Agora, com a delação da JBS, não há estimativa possível para a abertura de capital nos Estados Unidos.

Hoje, há informações no mercado de que a JBS estaria em negociações com o Departamento de Justiça (DoJ, na sigla em inglês) pelas quais assinaria um acordo de maneira a evitar punições pela legislação que pune atos de corrupção no exterior, conhecida como FCPA. Procurado, o DoJ informou ao Valor que não comentaria a respeito dessa possibilidade. O Departamento não passa nenhuma informação sobre negociações com empresas ou executivos.

A JBS também está sofrendo a revisão para baixo de agências de classificação de risco, o que torna a abertura de capital bastante improvável. Para completar, a companhia pode sofrer uma ação de indenização por parte de investidores, em Nova York.

O Valor procurou a JBS nos EUA para tratar da situação da companhia frente ao DoJ, mas a JBS não retornou o pedido de entrevista.

Além da provável frustração do IPO de sua subsidiária, as delações dos executivos da JBS podem ter impactos no mercado americano de carnes. No entanto, ainda é difícil traçar cenários. A avaliação é de Bill Westman, vice-presidente do Instituto de Carnes da América do Norte (Nami, na sigla em inglês), organização que representa diversas companhias no setor no país, inclusive a própria JBS.

"Ainda é muito difícil fazer essa avaliação. Você deveria perguntar isso à empresa", afirmou Westman ao ser questionado se a delação irá afetar a empresa e fazer com que concorrentes aproveitem oportunidades para crescer nos Estados Unidos.

Westman é um conhecedor da agricultura e da pecuária brasileira. No fim de abril, manifestou otimismo com o país e qualificou que os efeitos da Operação Carne Fraca foram pequenos sobre as exportações de carne, principalmente aos Estados Unidos que não fizeram qualquer restrição à carne brasileira. Sobre os impactos das delações, no entanto, disse que precisa se atualizar a respeito das eventuais consequências no mercado americano.

A JBS é a maior produtora de carnes nos Estados Unidos, onde emprega mais de 90 mil pessoas. No mundo todo, são 250 mil funcionários, segundo a empresa. A companhia brasileira investiu mais de US$ 7 bilhões em aquisições nos EUA, onde detém várias marcas relevantes de alimentos.

Fonte: Valor | Por Juliano Basile | De Washington