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Um divórcio bem mais complicado do que parece

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Ana Paula Paiva/Valor

A unidade da JBS em Lins, que era a sede do Bertin: cerca de 7 mil funcionários

Desfazer a associação entre o Bertin e a JBS não é uma operação tão simples de ser concretizada. Quase oito anos após a transação que deu origem à maior companhia de carne bovina do mundo, os ativos que pertenciam ao frigorífico Bertin não têm a mesma disposição original.

Conforme o jornal "O Estado de S. Paulo", a Procuradoria Geral da Fazenda Nacional (PGFN) pede que a Justiça cancele o negócio, alegando fraudes fiscais e societárias.

Responsável por 12% do faturamento do frigorífico Bertin, a empresa de lácteos Vigor, por exemplo, foi desmembrada da JBS em 2012 e, desde então, fez investimentos – o que inclui aquisições integrais de outras empresas e a compra de participações, como na mineira Itambé.

Se o negócio fosse cancelado, de que modo as mudanças feitas na estrutura da Vigor – assim como a JBS, controlada pela J&F – seriam afetadas? Por outro lado, o pedido da PGFN lança dúvidas sobre possíveis transações envolvendo a empresa. Conforme o Valor informou em março, a PepsiCo fez proposta para comprar a Vigor, que negou estar à venda. Em todo o caso, o imbróglio com o Bertin traria incerteza jurídica para uma eventual transação.

Para a JBS, cancelar a união com o frigorífico Bertin também não é algo trivial. O maior complexo industrial da divisão de carne bovina da JBS, que fica no município de Lins (SP), pertencia ao frigorífico Bertin.

Em Lins, a JBS produz não só carne bovina, mas também subprodutos como biodiesel e itens voltados para higiene (glicerina, sabão e sabonete de origem vegetal e animal). Ao cancelar a operação com o Bertin, a Flora, outra empresa da família Batista, poderia ser afetada. Dona de marcas como o detergente Minuano, a Flora é importante cliente do complexo de Lins.

Do ponto de vista global, porém, pode-se dizer que o negócio de carne bovina no Brasil, coração do negócio do frigorífico Bertin, é muito menos relevante hoje do que foi no passado. A JBS Mercosul – frente de negócios que reúne as operações de carne bovina e subprodutos e, portanto, os ativos originários do Bertin – representaram 16% (ou R$ 28,2 bilhões) da receita líquida total da JBS no ano passado, que chegou a R$ 170,3 bilhões.

Desses R$ 28,2 bilhões, os ativos do Bertin são a menor parte. Ainda que o dado não seja público, pode-se fazer uma comparação utilizando os dados de 2008. À época, o Bertin faturava R$ 7,5 bilhões, já incluindo as vendas da Vigor. Naquele ano, a JBS, sozinha, já faturava pouco mais de R$ 30 bilhões.

De lá para cá, a companhia expandiu e muito sua atuação por meio de uma série de aquisições no Brasil e no exterior nas áreas de aves, suínos e alimentos processados – Seara, Moy Park, ativos de suínos da Cargill nos EUA, Primo. Em carne bovina, a empresa também ampliou suas operações, especialmente com arrendamentos de frigoríficos no Brasil em 2012.

Procurada pelo Valor, a JBS informou que "não há nenhum pedido de cancelamento da incorporação da Bertin S/A". A empresa também informou que, ao incorporar o Bertin, assumiu "o passivo exclusivamente desta empresa, não havendo, portanto, nenhuma responsabilidade por outros passivos que não sejam da Bertin S/A".

Por Luiz Henrique Mendes | De São Paulo

Fonte : Valor