Um alívio para os exportadores de suco

Em forte queda por conta de uma produção também menor e exportações relativamente estáveis, os estoques de suco de laranja brasileiro nas mãos das grandes indústrias exportadoras deverão descer, até junho, ao menor patamar dos últimos quatro anos e oferecer alguma sustentação às cotações do produto no mercado internacional mesmo com a demanda mundial também em retração.

Conforme informações divulgadas ontem pela Associação Nacional dos Exportadores de Sucos Cítricos (CitrusBR), os estoques de suas associadas – Citrosuco, Cutrale e Louis Dreyfus Commodities -, que lideram os embarques globais, ficaram em 728,9 mil toneladas equivalentes ao suco de laranja concentrado e congelado (FCOJ) em 31 de dezembro, 27,3% abaixo do nível observado um ano antes.

No ritmo atual de vendas, o volume, segundo a entidade, tende a encolher para 292,4 mil toneladas em 30 de junho, quando termina a safra atual (2015/16) – uma redução de 42,7% na comparação com o total computado no fim da temporada 2014/15 e abaixo de um ponto de equilíbrio calculado em 300 mil caixas. Se confirmada, será a menor quantidade armazenada pelas três companhias em 30 de junho desde 2011 (ver infográfico).

"É o fim do acúmulo de estoques", diz, em comunicado, Ibiapaba Netto, diretor-executivo da CitrusBR. Ao Valor, ele lembrou que a forte retração espelha duas temporadas seguidas de produção restrita de suco de laranja, por conta de duas safras menores da fruta no cinturão produtivo que se espalha por São Paulo e Minas Gerais.

Na semana passada, o Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus), mantido por indústrias e produtores de laranja, divulgou que passou a projetar a colheita da região – que reúne o principal parque citrícola do planeta – em 2015/16 em 289,9 milhões de caixas de 40,8 quilos, ante as 308 milhões estimadas apenas pelas indústrias no ciclo 2014/15. Em 2011/12 e 2012/13, foram mais de 350 milhões de caixas da fruta.

Com a queda na colheita, a produção de suco das três grandes empresas, que no passado já chegou a cerca de 1,2 milhão de toneladas, caiu para 888 mil toneladas equivalente ao FCOJ em 2014/15 e, em 2015/16, não deverá superar 850 mil, até porque o rendimento industrial na atual temporada está sendo prejudicado pelas chuvas abundantes, que tornam as laranjas maiores, mas com menos suco.

De acordo com a CitrusBR, de maio de 2014 a janeiro de 2015 foram necessárias, em média, 240,5 caixas de laranja para a produção de uma tonelada de suco, enquanto de maio do ano passado até janeiro último essa média aumentou para 299,1 caixas. "É, de longe, o pior rendimento industrial já registrado", afirma Netto no comunicado divulgado pela entidade.

Somada à forte retração da oferta da Flórida, que abriga o segundo maior parque citrícola do mundo, a redução da oferta das exportadores de suco brasileiro poderá continuar a limitar a baixa dos preços internacionais da commodity apesar de a demanda seguir fraca.

"Há algum tempo a oferta e a demanda de suco vêm caindo juntas, o que tem permitido manter os preços internacionais em patamares relativamente estáveis – próximos de US$ 1,8 mil a tonelada – mesmo com o dólar valorizado, que tem impactado de forma negativa as cotações de outras commodities", afirma Andrés Padilla, analista do Rabobank do Brasil.

"Mas essas novas quedas esperadas nos estoques mostram que, por enquanto, a oferta de suco está caindo ainda mais rapidamente que a demanda, em boa parte devido ao baixo rendimento da safra brasileira. Isso deve manter a estabilidade nos preços em dólar nos próximos meses ou até trazer um aumento para as cotações do suco brasileiro", reforça Padilla.

E os estoques recuaram também porque as exportações brasileiras ficaram estáveis em 2015, em parte em virtude da menor oferta da Flórida. Somaram pouco mais de 1 milhão de toneladas e renderam US$ 1,7 bilhão.

Por Fernando Lopes e Fernanda Pressinott | De São Paulo
Fonte : Valor