Têxteis que atuam no país terão disputa difícil com exportações

O dólar forte pode ser um aliado do produtor de algodão a partir de setembro, quando começará a entrar no mercado cerca de 500 mil toneladas da pluma da safra 2014/15 ainda não comprometidas com nenhum contrato de venda. Normalmente, esse volume seria absorvido no mercado interno pela indústria nacional. Mas, para isso, as têxteis terão que pagar mais para competir com a remuneração oferecida pela exportação. Com o dólar a R$ 3,50, vender ao exterior ficou 5,5% mais atrativo do que no mercado interno.

O produtor está neste momento fazendo a entrega de um volume de 1 milhão de toneladas, equivalentes a 70% da safra, já comprometido com vendas fechadas antecipadamente. Já a indústria têxtil tem "esticado" seus estoques, dada a demanda enfraquecida por fios e tecidos no país, explica o presidente da Associação Nacional dos Exportadores de Algodão (Anec), Marco Antonio Aluisio. "Já é conhecida a situação da indústria têxtil nacional. Muitas estão reduzindo o número de turnos e colocando o pé no freio. Mas em setembro, os estoques acabam. Saberemos, então, como o mercado interno vai reagir. Se precisarem de algodão, terão que pagar mais caro".

Os preços da commodity no país não estão sofrendo a pressão típica de início de colheita. Bem pelo contrário. Acumulam, em agosto, uma valorização 2,46%, a R$ 2,1685 a libra-peso, conforme indicador Cepea/Esalq. O presidente da Anea explica que isso acontece porque, por ora, toda a produção já beneficiada na temporada 2014/15 está sendo direcionada para cumprir os contratos feitos anteriormente.

Nas condições de hoje do mercado – cotação da commodity e do câmbio – a indústria têxtil teria que pagar, no mínimo, R$ 2,28 por libra-peso para competir com os preços de exportação – considerando o dólar Ptax de sexta-feira (R$ 3,5181), 5,5% acima do preço da pluma no mercado interno. "O que vai acontecer em setembro vai depender, claro, do comportamento do câmbio", diz Aluisio.

Para as cotações internacionais da pluma, o dirigente da Anea não vê fatores que justifiquem uma valorização. Em retração há pelo menos dois anos, a commodity padece com a fraca demanda, decorrente do desaquecimento da economia global e do aumento da concorrência das fibras sintéticas, mais atrativas com a queda dos preços do barril do petróleo. Mas o grande fator de pressão é o grande volume de estoques globais, praticamente todo concentrado na China. "Toda a vez que o preço ameaça subir, o governo chinês entra no mercado vendendo seus estoques. O algodão tem limites para subir, mas não para cair", afirma

Por Fabiana Batista | De São Paulo

Fonte : Valor