Trigo perde relevância no campo gaúcho

Luz pede tributação alinhada com o exterior para incentivar o trigo

Luz pede tributação alinhada com o exterior para incentivar o trigo

Edição impressa de 3 de agosto de 2015O trigo vem perdendo relevância na produção do Rio Grande do Sul. Depois da frustração da safra passada devido aos problemas climáticos, a área plantada caiu cerca de 25% no Estado, sendo que, em determinadas regiões, despencou 40%. Mesmo quando a colheita traz bons resultados, os preços pagos ao produtor não garantem retorno financeiro, o que ainda depende da qualidade obtida. Sem opções comerciais satisfatórias para substituí-la, a cultura serve, cada vez mais, apenas para preparar a terra para o plantio da soja, no verão.

Para o diretor executivo da Federação das Cooperativas Agropecuárias do Rio Grande do Sul (Fecoagro-RS), Sérgio Feltraco, além da frustração com os resultados de diversas safras na última década, o aumento dos custos, a falta de liquidez do produto no mercado e as perspectivas negativas para o clima afetam a decisão do agricultor, o que faz diminuir a área plantada. "Os produtores que estão ‘resistindo’ e seguem cultivando trigo o estão fazendo porque veem nele um elemento importante do plantio direto, sistema que requer uma cultura de inverno", afirma.

Encontrar estabilidade, tornando o trigo rentável no mercado novamente, requer uma série de medidas. Não se trata, na visão de Feltraco, de ausência de tecnologia ou de sementes de qualidade, mas sim da imposição de elementos básicos de comercialização que deem confiança ao produtor, como um seguro agrícola específico que garanta o investimento e diminua os riscos. "Ou seja, é necessário o apoio de políticas públicas e interferências eventuais do governo nos mercados para permitir que o produto chegue, ao menos, próximo ao preço mínimo", ressalta.

O presidente do Sindicato da Indústria do Trigo (Sinditrigo-RS), Andreas Elter, acredita que o problema, nos últimos 10 anos, foi climático e concorda que há necessidade de um seguro mais amplo. Paralelamente, a instabilidade traz problemas para a indústria. No ano passado, por exemplo, o Estado moeu 1,8 milhões de toneladas, mas a necessidade de importar matéria prima reduz a competitividade. "O frete é um custo enorme que reduz nossa capacidade competitiva", destaca Elter. A estimativa é reduzir o processamento para 1,4 milhões de toneladas em 2015. Desse total, entre 400 mil e 500 mil toneladas devem vir, principalmente, do Paraná e da Argentina.

"Enquanto pagarmos impostos no custo de produção quando nossos concorrentes subsidiam e enquanto estivermos à disposição um sistema logístico em que a cabotagem é mais cara que o caminhão, o quadro não mudará", opina o economista-chefe da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), Antônio da Luz. E a situação vem se agravando desde 2013. Segundo os indicadores da Farsul, o Custo Operacional Total (COT) do grão saltou de R$ 2.065,00 por hectare em setembro de 2013 para R$ 2.250,00 em igual mês do ano passado, um crescimento de 9%. Ao mesmo tempo, a receita sofre uma queda de 32,4%, de R$ 1.901,00 por hectare para R$ 1.285,00.

Entre as soluções propostas pela entidade estão o reajuste do preço mínimo a um patamar semelhante ao dos custos; a manutenção da Tarifa Externa Comum (TEC) para terceiros países; a redução permanente do ICMS para saídas interestaduais, hoje em 12% para 2%; e a criação de mecanismos de comercialização, como estoques públicos do cereal e Prêmio Equalizado Pago ao Produtor (Pepro) em quantidade suficiente para escoar 600 mil toneladas. "O governo precisa promover a competitividade através de uma tributação justa e alinhada com a concorrência internacional, sobre a lucratividade e não sobre o custo de produção", completa Da Luz.

Alternativas de cultivo não geram segurança ao produtor

Deixar de plantar trigo não é uma opção simples. Canola, cevada e aveia são opções de culturas de inverno. Enquanto a última não tem valor comercial, as duas primeiras sofrem de problemas parecidos com os da triticultura, especialmente os entraves climáticos, segundo o engenheiro agrônomo do escritório regional da Emater em Passo Fundo, Cláudio Dóro. A canola, embora tenha liquidez no mercado, também carece de tecnologia apropriada para a colheita no Estado.

Sem alternativas, resta à maior parte dos agricultores seguir cultivando o grão. Na safra atual, entretanto, mais uma vez, as chuvas de alta intensidade impossibilitaram a entrada das máquinas de semeadura no campo e atrasaram o plantio. No caso das lavouras estabelecidas, o quadro também não é animador. O excesso de umidade, as temperaturas amenas e os dias nublados favoreceram o aparecimento de doenças fúngicas, cujo tratamento encare ainda mais os custos de produção.

A projeção da Emater, neste momento, é colher 2,3 milhões de toneladas. Para cobrir os custos, o agricultor terá de colher 50 sacos por hectare, o que aconteceu apenas uma vez na última década – em 2013, quando a média foi de 60 sacos por hectare.

Agricultor afirma plantar o cereal por ‘teimosia’

Ao menos 80% dos 60 hectares do agricultor Alexandre Pollo, em Passo Fundo, recebiam trigo no inverno há cerca de 10 anos. A área do grão foi sendo reduzida progressivamente e, hoje, são apenas 15 hectares. Pollo afirma que segue plantando "por teimosia". "Hoje, não é rentável. Se houvesse garantia de preço, valeria a pena. Mas, mesmo com uma produção boa, terá apenas um lucro mínimo", diz.

Pollo buscou alternativas, como a canola, mas não obteve bons resultados. "A colheita era muito arriscada. Qualquer chuva ou vento, e tínhamos perdas de 70% a 80%", destaca. Sem ter o que fazer, seguiu com o trigo, em resumo, apenas para preparar a terra para o verão. "No inverno, não tem o que fazer com a área. Garantir palhada para a soja é o único fator que nos mantém plantando trigo", completa.

Aldir Guth, também de Passo Fundo, atrasou o plantio. Depois das chuvas, foi preciso aplicar fungicidas. A projeção de produtividade caiu de 60 para 45 sacos por hectare. Se, mais uma vez, a produção frustar, planeja diminuir a área. "Tinha que ter incentivo, porque não é viável. Gasta-se mais de 30 sacas para plantar um hectare. Agora, funciona mais como correção de solo", afirma Guth.

Fonte : Jornal do Comércio