Transgênicos e orgânicos devem ser aliados, diz pesquisadora

Segundo Pamela Ronald, da Universidade da Califórnia, há uma visão deturpada sobre tecnologia agrícola e uma prática não exclui a outra

Pesquisadora americana diz que produção agrícola tem que equilibrar uso de transgênicos e orgânicos (Foto: Divulgação/Urban Remedy)
As produções de alimentos orgânicos e transgênicos não devem ser rivais, mas aliadas, diz a pesquisadora Pamela Ronald, da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos. Além de ter respaldo científico para afirmar isso, ela vive isso na prática em casa: ela é casada com um produtor de orgânicos.

A convivência de paz acontece porque eles têm "como meta e foco a agricultura sustentável", ou seja a redução do uso de químicos e recursos naturais, e seus impactos negativos. Segundo Pamela, ambos os modelos de plantio são válidos e um não exclui o outro.

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A adoção de alimentos transgênicos, afirma a especialista, é mal vista na sociedade. Durante o seminário Caminhos da Ciência e Desenvolvimento, que aconteceu em São Paulo nesta quarta-feira (2/12), ela comparou o uso da tecnologia ao de medicamentos destinados a tratamentos de saúde em humanos.

"A agricultura é como a medicina: se usar apenas remédios naturais, não terá bons resultados. Mas as pessoas são tolerantes nesse aspecto (o uso de químicos e genética para tratamento e combate de doenças), mas o mesmo não acontece com a agricultura, que precisa usar tecnologia para lidar com suas doenças e problemas", conta. "Isso acontece porque sempre conhecemos alguém doente, com câncer, por exemplo, e somos solidários. É uma situação muito próxima. Já quem produz alimentos no campo, não. Hoje ninguém conhece os agricultores, nem sabem da onde vem a comida do prato e as dificuldades de produzi-la. São pessoas e situações que não são próximas da realidade da maioria das pessoas", argumenta.

Em sua apresentação no seminário, Pamela exemplificou esse argumento com o caso de Bangladesh, que usa variedades de milho transgênico. Por lá, os agricultores não têm acesso ao equipamento de segurança que evita intoxicação durante a aplicação de agrotóxicos na lavoura. Neste caso, o milho resistente ao ataque de pragas salva vidas porque dispensa químicos e, consequentemente, os trabalhadores de lá não precisam aplicar agrotóxicos e não se contaminam com esses produtos. "Isso é muito importante para ter um plantio sustentável", diz a pesquisadora.

Ela citou outros casos, como o aumento da produtividade de lavouras de mamão com o combate a doenças, usando menos terra e água; as variedades resistentes às mudanças climáticas; e também o arroz geneticamente modificado para ter mais vitamina A, o que evita que crianças pobres desenvolvam cegueira por falta desse nutriente em regiões pobres do planeta.

"É preciso que as pessoas busquem entender o porquê dos produtores usarem os transgênicos. Por que um produtor usa milho BT em sua lavoura, por exemplo? Para evitar aplicações de agrotóxicos. E é isso que não está sendo bem comunicado. Os transgênicos são apenas um dos processos e, por isso, uma escolha. Precisamos usar todas as ferramentas para ter uma maior sustentabilidade na produção de alimentos", defende.

"Todos devem manter o foco na agricultura sustentável. Isso é o mais importante, e nós já fazemos isso lá em casa, cada um da sua maneira", finaliza.

POR TERESA RAQUEL BASTOS

Fonte : Globo Rural