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"Tinder dos alimentos" incentiva doação por parte de pequenos estabelecimentos

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Ana Paula Paiva/Valor

Luciana Gonçalves, do Mesa Brasil: "Muitas vezes, critérios de qualidade [do varejo] fogem à nossa compreensão"

Felizmente para quem o recebe, nem todo alimento amassado, fora de padrão ou vencimento próximo encerra a sua trajetória no lixo. Com qualidades nutricionais preservadas, muitos também são doados a instituições beneficentes e bancos de alimentos do país.

Maior receptor nacional, o Mesa Brasil, programa de recolhimento de alimentos criado pelo Sesc há 23 anos, distribuiu quase 38 mil toneladas em 2017, repassadas a 5,9 mil entidades sociais no país. Tratam-se de doações de grandes varejistas e da indústria de alimentos, que retiram produtos com tempo de prateleira curto (em geral, com prazo de três a seis meses do vencimento) e itens de FLV que não passaram nos testes de conformidades.

Como um carregamento de melão barrado no centro de distribuição de um supermercado por estar "gelatinoso", sinal de que pegou muita chuva. Ou melancias que se soltaram no caminhão no trajeto e, por esse motivo, foram rejeitadas por outra empresa. "Muitas vezes, esses critérios de qualidade fogem à nossa compreensão", diz Luciana Curvello Gonçalves, nutricionista e coordenadora do Mesa Brasil em São Paulo. "São alimentos com valor nutritivo intacto".

Com infraestrutura empresarial – escritórios regionais, quadro de funcionários, caminhões, centros de captação -, o Mesa Brasil cumpre hoje um papel importante na distribuição das doações. Mas nem sempre consegue chegar ao pequeno doador. O volume não justifica o deslocamento da equipe.

Nesse sentido, o lançamento no mês passado de um aplicativo para conectar doadores – restaurantes, empórios, bares e pequenos mercados – e receptores pode ajudar a mudar o quadro do desperdício no país. Chamado " Comida Invisível", o aplicativo funciona por geolocalização, mostrando quem está doando o quê nas redondezas – e o "match" é feito, razão pela qual o aplicativo é chamado extraoficialmente de "Tinder dos alimentos".

"Nós não fazemos a coleta. Atuamos para facilitar as transações", diz Daniela Leite, sócia-fundadora e idealizadora do Comida Invisível, junto com Sérgio Ignacio.

Pelo celular, as entidades beneficiadas podem saber o volume exato do que está sendo doado, a validade e até características do produto. Duas caixas de tomates, por exemplo, podem vir com a informação adicional "no ponto para molho" ou "para fazer amanhã".

O poder de escolher o que se quer e quanto é outra vantagem. Muitas vezes, os receptores recebem volumes de alimentos nem sempre necessários. E o cardápio da semana se transforma em uma overdose de batatas. "O Comida Invisível ajudará não apenas a diminuir o desperdício, mas a pensar mais nele -o que efetivamente faz mudar", diz a chef Roberta Sudbrack, uma das entusiastas do app.

Advogada de formação, Daniela tomou precauções para afastar das transações o maior entrave das doações – o receio da responsabilização após a entrega. "Criamos um contrato com força legal para que a partir do momento que a entidade retira o alimento, ela assume a responsabilidade".

Fonte: Valor | Por Bettina Barros | De São Paulo