Terceirizar é retrocesso

A ideia que a terceirização aumentará a competitividade é enganosa. Nenhum país se tornou competitivo sem valorizar os trabalhadores com justa remuneração e sem reconhecer os seus direitos. O velho Henry Ford, há 100 anos, demonstrou isso quando criou departamentos sociais para lidar com os seus operários e instituiu um sistema de cargos e salários que permitiu o trabalhador sonhar em adquirir um automóvel, então um bem de luxo restrito apenas à aristocracia. A administração moderna ensina que as empresas só se tornam mais competitivas e criativas quando constroem ambientes de maior liberdade e participação, quando valorizam seus trabalhadores com salários e investem em tecnologia, agregação de valor e capacitação profissional.
No Vale do Sinos, conhecemos um tipo de empresa chamada de atelier. Os atelieres contratam trabalhadores sem registro em carteira assinada; preferem empregar mulheres e jovens, inclusive menores de idade, que não tiveram acesso à qualificação profissional. Utilizam máquinas ultrapassadas, sem uso de equipamentos de proteção, apresentam sérios problemas de higiene e segurança no trabalho. Essas empresas terceirizadas e quarterizadas por algumas indústrias de calçados de marca não investem em tecnologia e não desenvolvem novos modelos. A terceirização já existe, inclusive na indústria de calçado, e representa perda de competitividade. Os empresários apoiam a terceirização porque enxergam nela uma grande oportunidade para reduzir custos e não se dão conta que a terceirização irá expandir o que chamamos de "atelierização da nossa indústria", justo nesse momento de crise econômica.
O que proporciona competitividade é uma política industrial coerente, a participação dos empresários e trabalhadores em torno de metas pactuadas com um Estado indutor do crescimento econômico, redução da taxa de juros, investimento em pesquisa, agregação de valor. Além de um empresariado menos apegado à "casa grande", pois os trabalhadores há muito não sentem saudade da senzala.
Secretário de Comunicação da Federação dos Sapateiros/RS

Fonte: Jornal do Comércio | Antônio Guntzel