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Sustentabilidade em xeque (Artigo)

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Em que pese as críticas à efetividade das megaconferências sobre sustentabilidade, a simples realização de amplos fóruns mundiais é animadora por si só. Pelo menos, valem para medir a percepção da gravidade da questão ambiental pela comunidade internacional. Ainda estão acesos na memória os ecos da Rio+20, recém-concluído evento que reuniu 193 países, 50 mil visitantes, uma série de manifestações exóticas e outro tanto de propostas inexequíveis, ao custo estimado de 150 milhões de dólares. Avaliações posteriores evidenciam as posturas que se entrechocaram durante as sessões do encontro. Numa ponta da mesa, os pessimistas inveterados consideram pífias as caudalosas conclusões da Rio+20, consubstanciadas nos mais de 700 compromissos voluntários assumidos pelos participantes no documento O futuro que queremos. Na outra ponta, os otimistas de plantão, como Ban Ki-Moon, secretário- geral da ONU, comemoram o que classificam de "grande sucesso".

Visão mais serena, entretanto, parece indicar que a verdade está situada mais para o centro das análises. Se, novamente, uma cimeira sobre o clima termina sem resoluções concretas e efetivas para a defesa ambiental, o tema ganhou espaço e visibilidade na mídia, foi discutido nas escolas, examinado em conversas, analisado por especialistas, enfatizado em ambientes corporativos. Esse saldo deverá contribuir, pelo menos, para ampliar a conscientização, na sociedade, sobre a importância de mudar comportamentos e prioridades, traduzindo intenções em ações efetivas de preservação dos recursos naturais (finitos) ameaçados por uma população mundial que já bateu nos 7 bilhões de pessoas e continua a crescer – principalmente nos grandes bolsões de miséria onde subsistem milhões de vítimas de fome, doenças endêmicas, ignorância, massacres étnicos, violências de todos os tipos, entre outras mazelas. Nesse ponto, acredito, está o grande nó da questão da sustentabilidade, ao que tudo indica ainda longe de ser desatado.

Um capítulo positivo do encontro foi o painel Diálogos sobre as mudanças do clima: cenários nacional e internacional, que coordenei no dia 13 de junho, como parte do evento Humanidade 2012, promovido no Rio de Janeiro pelas federações das indústrias fluminense (Firjan) e paulista (Fiesp). O balanço geral da Rio+20 evidencia que soluções ambientais ainda esbarram em dois impasses, que colocam em oposição os países ricos (hoje escorados adicionalmente na desculpa da crise) e os pobres: a decisão firme das nações signatárias de adotar modelos econômicos sustentáveis e a definição de quem deve pagar os altos custos.

Anfitrião do encontro, o Brasil vem construindo um (até agora) razoavelmente bem-sucedido modelo de desenvolvimento, baseado no estímulo ao consumo interno como caminho para a inclusão social e redução da pobreza. Essa postura foi explicitada pela presidente Dilma Roussef na véspera de nosso painel, durante assinatura de protocolo para administração, pelo governo mineiro, do investimento federal de R$ 1,5 bilhão no anel rodoviário de Belo Horizonte. Para Dilma, a questão da sustentabilidade não pode ser dissociada de forte processo de inclusão social, em especial nos países emergentes, onde a consolidação do desenvolvimento depende do fortalecimento da classe média.

Não somos ainda uma economia de classe média, pois temos milhões de brasileiros sem casa, sem saneamento, reconheceu a presidente. A relação das carências sociais, no entanto, poderia ser bem mais alongada. Incluiria, com muita propriedade, a escolaridade precária e a falta de capacitação para o trabalho no século 21; o insatisfatório atendimento na área da saúde; a baixa capacidade de geração de emprego nas empresas, em razão da persistência de gargalos do desenvolvimento, como as deficiências de infraestrutura física, a elevada carga tributária, o peso do custo Brasil.

Colocando em andamento projetos de remoção desses obstáculos, o governo estaria dando um passo gigantesco na conquista da sustentabilidade do desenvolvimento, com sólidos avanços na redução das desigualdades e na implementação de políticas viáveis de exploração racional de seus ricos e diversificados recursos naturais, transformando em realidade as potencialidades de crescimento do país, decantadas há séculos com acenos de promessas para um futuro melhor que, por falta de vontade ou decisão política, está tardando demais a chegar.

RUY MARTINS ALTENFELDER SILVA Presidente do Conselho de Administração do CIEE e do Conselho Superior de Estudos Avançados (FIESP %u2013 IRS)

Fonte: CORREIO BRAZILIENSE – DF : RUY MARTINS ALTENFELDER SILVA