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Sustentabilidade é diferencial para a adoção do processo

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Fonte: Valor | Por Paulo Vasconcellos | De São Paulo

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Zehbour Panossian, do IPT: "O custo da corrosão é muito pesado para os países e também para a natureza"

O esforço para que o Brasil ingresse na era do aço galvanizado na construção de grandes obras públicas ou simples prédios de moradia tem um argumento irrefutável: o metal é sustentável. O Tratado de Kyoto defende uma maior durabilidade do aço no âmbito das medidas preventivas para o controle da poluição. O aço já é 100% reciclável. Se for galvanizado para proteger da corrosão tem a vida útil prolongada e poupa recursos naturais que seriam desperdiçados em obras de manutenção. O zinco utilizado na galvanização tem 30% de seu consumo no mundo proveniente de fontes recicladas.

O ferro, matéria-prima a partir da qual é produzido o aço, é um dos elementos mais abundantes no planeta e não emite substâncias agressivas ao ambiente. Sua produção, argumentam os defensores da tecnologia, é racional em consumo de energia e, além disso, provoca baixa ou nenhuma emissão de CO2 nos processos siderúrgicos mais modernos.

O uso do aço na construção reduz o impacto ambiental nos canteiros de obras e economiza recursos naturais porque não exige fundações tão profundas. Em prédios feitos com a tecnologia "steel frame", com estruturas de aço galvanizado e revestimento de gesso acartonado, permite economia de água e canteiros de obras mais limpos, segundo avaliação de especialistas.

A estimativa é de que uma edificação feita em aço em comparação a uma feita em concreto resulta em uma redução de 41% no consumo de água durante a construção. A construção em aço também faz cair pela metade o movimento de caminhões na obra e o volume de entulho, segundo especialistas. Ao longo da vida útil da edificação, o aço possibilita economia significativa de energia, facilidade de manutenção e adaptabilidade.

"O aumento da vida útil do aço faz com que se empregue menos energia em qualquer estrutura de construção", diz o engenheiro metalúrgico Ulysses Barbosa Nunes, vice-presidente da Associação Brasileira de Construção Metálica (ABCEM) e membro do Conselho Consultivo do Instituto de Metais Não Ferrosos (ICZ). "Num país como o Brasil, em que o governo é o grande comprador de aço porque as obras de infraestrutura são sempre feitas com recursos públicos, seria importante uma política governamental em busca da sustentabilidade. Na Itália isso foi feito com sucesso para baratear os gastos governamentais na construção e manutenção das obras."

A galvanização é um processo ainda pouco utilizado no Brasil. O consumo de zinco no país é baixo – apenas 1,6 quilo por habitante. Na Europa chega a ser de seis quilos por pessoa. Segundo os especialistas, além da falta de uma política pública, também há o desconhecimento e o fato de a indústria de galvanização ainda ser nova no país.

"A malha de atendimento só agora está aumentando e existe a perspectiva de implantação de mais cinco plantas de galvanização nos próximos dois anos", afirma Ulysses Barbosa Nunes, da ABCEM. "Uma estrutura galvanizada em um ambiente marinho garante uma durabilidade de dez anos sem manutenção. A mesma estrutura com pintura precisaria de três a quatro manutenções durante esse tempo."

"Os novos projetos contemplam essas preocupações com a durabilidade e a sustentabilidade", diz Marcelo Schultz, engenheiro de Corrosão da Petrobras e um dos palestrantes do GalvaBrasil, congresso realizado semana passada em São Paulo. "Medidas estão sendo tomadas para minimizar os problemas da corrosão com o uso de aço inoxidável, do aço carbono puro ou metalizado e de materiais não metálicos, mas a indústria siderúrgica precisa trabalhar mais próxima às empresas que demandam mais, como Petrobras e Vale. A gente não está participando do desenvolvimento da tecnologia de galvanização" avalia.

"O custo da corrosão é muito pesado para os países e também para a natureza", afirma a professora Zehbour Panossian, responsável pelo Laboratório de Corrosão e Proteção de Metais do Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo (IPT). "Consegue-se reduzir esse prejuízo em 20% a 30% com as medidas preventivas corretas", afirma.

Um bom exemplo recente, segundo a professora do IPT, está na indústria automobilística. Desde os anos 90, as fábricas de automóveis instaladas no país têm aplicado uma camada de tinta sobre o aço zincado das carrocerias – chamado de sistema duplêx.

Até então, a resistência das partes de um carro mais expostas à corrosão era muito precária e muitos veículos eram mandados para o ferro-velho com o motor ainda em bom estado. A aplicação de duplêx e a melhoria da qualidade da tinta hoje provocam um resultado inverso.

"A carcaça agora dura mais que o motor", afirma Zehbour Panossian, do IPT. "No caso de construção civil o aço galvanizado não é muito usado. O pessoal da engenharia civil enfoca a melhoria do concreto, mas não da durabilidade da obra. Não sei se é uma questão política ou cultural. Aqui no Brasil espera-se que uma obra dure de 30 a 40 anos. Em outros países elas são feitas para durar cem anos."