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Suinocultura deixa a crise para trás e volta a avançar

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Wilant Van Den Boogaard, que produz suínos para atender o frigorífico Alegra
A velha estrutura que abrigava a granja na qual o descendente de holandeses Wilant van den Booghaard produzia perus foi totalmente reformada neste ano para dar lugar à criação de suínos. Produtor rural em Carambeí (PR) e associado da cooperativa Frísia – a antiga Batavo – desde o início da década de 1980, Booghaard gastou mais de R$ 700 mil na reforma da granja e já se prepara para investir mais de R$ 1 milhão a fim de dobrar a atual produção de leitões.

De sua pequena propriedade localizada na região dos Campos Gerais, Booghaard reflete o novo momento da suinocultura brasileira. Fortemente abalada pela disparada dos preços dos grãos em 2012, a atividade, que viu a liquidação de 10% do plantel de matrizes de suínos (reprodutoras), vem se recuperando gradualmente, em um processo que tende a se acelerar em 2016.

Na indústria, os investimentos na ampliação da capacidade de abate e, principalmente, na industrialização demonstram a expectativa de avanço do consumo per capita de carne suína, em detrimento da carne bovina – cada vez mais cara. Apenas em 2015, foram investidos mais de R$ 500 milhões em novas unidades e na ampliação de plantas. Esse cálculo considera os aportes de Alegra Foods, de Castro (PR), Adelle, de Seberi (RS), da Pamplona, de Rio do Sul (SC) e da Aurora, que ampliou unidade em São Gabriel do Oeste (MS).

"O preço da ração caiu. Foi isso que aconteceu". Assim César Castro Alves, analista da consultoria MB Agro, resume a retomada dos investimentos no setor para ampliar a produção. Em paralelo à queda das cotações de soja e milho – a base da ração dos suínos -, o setor também contou com um bônus externo, afirmou ele. Em 2014, importantes produtores como EUA e Canadá foram afetados pelo vírus da diarreia suína epidêmica (PED, na sigla em inglês), o que fez os preços da carne suína dispararem, favorecendo o Brasil.

Em 2014, a margem bruta da indústria de suínos no sistema de integração foi a maior da história – 23% para a carne in natura -, segundo a MB Agro. Os preços da carne suína cederam neste ano (ver gráfico abaixo), mas a margem continua bem acima da média de 1% da série histórica, iniciada em 2006. No mês passado, a margem foi de 10%, conforme a consultoria.

Na avaliação do diretor de mercado interno de suínos Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Jurandi Machado, a recuperação dos alojamentos de matrizes é "lenta" se considerada apenas o plantel total. Mas o melhor perfil genético, com maior número de leitões por parto e o peso de abate superior, fizeram com que a produção de carne crescesse em ritmo mais rápido.

Entre 2012 e 2013, houve uma liquidação de 170 mil matrizes no país, com o plantel caindo para 1,511 milhão de cabeças, estima a ABPA. Neste ano, a expectativa é que os alojamentos atinjam 1,520 milhão de matrizes, alta de 0,6% sobre 2013. Já a produção de carne suína deve atingir 3,52 milhão de toneladas, 3,2% mais do que em 2013.

"Estamos no início desse processo de expansão dos alojamentos", avalia o presidente do grupo Agroceres, Fernando Pereira. Pelas estimativas da Agroceres PIC, maior empresa de genética suína do país, o alojamento de matrizes vai aumentar em 35 mil neste ano e, em 2016, serão mais 45 mil matrizes alojadas no país.

Segundo ele, o aumento dos alojamentos neste ano é puxado pelas cooperativas da região Sul. É exatamente o caso de Booghaard, que está investindo para atender a demanda por suínos do frigorífico Alegra, sociedade de cooperativas na qual a Frísia faz parte.

A partir do fim de 2016, as grandes indústrias é que irão investir, diz Pereira. Um exemplo é a BRF. De acordo com o presidente da Associação Brasileira de Criadores de Suínos (ABCS), Marcelo Lopes, a empresa pretende elevar de 45 mil para 90 mil o número de matrizes que são alojadas em Lucas do Rio Verde (MT). Procurada, a empresa não quis dar detalhes sobre o projeto.

"Está havendo substituição da carne bovina", diz Lopes, que projeta que o consumo per capita de carne suína alcance 18 quilos em 2018, ante os atuais 15 quilos – desse volume, 97% são de industrializados.

Na contramão, César Castro Alves, da MB Agro, alerta para a dificuldade em aumentar o consumo no país, especialmente porque as tecnologias envolvidas nas novas granjas e fábricas levarão a uma produção de carne bem maior. "Está se desenhando um quadro de produção muito forte. Vamos depender de uma exportação sem sustos", diz, lembrando a inconstância das vendas externas do país, dependente da Rússia. As exportações representam 15% da produção brasileira de carne suína.

O jornalista viajou a convite da Frísia

Por Luiz Henrique Mendes | De São Paulo e Carambeí (PR)
Fonte : Valor