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Sorgo volta a perder ‘status’, mas ganha apoio da Embrapa

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Divulgação

Depois da queda da safra 2015/16, produção está em recuperação neste ciclo

Promessa de sucesso em 2015, quando a China rejeitou uma série de carregamentos de milho transgênico, o sorgo não balançou o comércio internacional como se supunha. No Brasil, foi renegado novamente à cobertura de solo, quando o produtor perde a janela para o cultivo de milho e/ou não tem dinheiro para produzi-lo. O alento é que a Embrapa quer mudar essa visão: defende que o sorgo sirva como reserva do produtor em períodos de seca e quer valorizá-lo como produto de nicho.

Tanto o milho quanto o sorgo são plantados atualmente no país sobretudo após a colheita de soja e se desenvolvem no inverno. Mas o milho tem um mercado muito maior e é mais rentável, lembra Cícero Beserra de Menezes, pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo. “Além disso, a indústria de sementes, fertilizantes e defensivos é mais agressiva no fornecimento de produtos para o milho. O produtor fica meio sem opção de escolha”.

Para ele, porém, o produtor deveria manter 30% da propriedade destinada ao sorgo como “hedge” para os períodos em que não houver chuva. “O sorgo pode ser plantado em qualquer data e tolera seca, diferentemente do que ocorre com o milho. Mas é tudo ou nada. Ou tem uma enorme produtividade ou a safra quebra”, afirma Menezes. Ele explica que a planta do tipo granífero tem uma sistema radicular mais longo que o do milho, busca água em lençóis bem profundos e tem uma espécie de cera em suas hastes que retém a umidade. A partir de 20 de fevereiro, vira a opção ideal de plantio, diz.

Além dessas questões, o cultivo de sorgo custa metade do milho – em média, R$ 1.300 por hectare nesta safra. Mas a produtividade não é grande coisa, e a rentabilidade também não. Enquanto o sorgo produz uma média de 60 sacas por hectare, o milho rende cerca de 100 sacas por hectare. Além disso, Cristiano Palavro, consultor técnico da Associação dos Produtores de Soja de Goiás e Milho (Aprosoja-GO), observa que o sorgo é alelopático – libera substâncias tóxicas no solo que prejudicam o desenvolvimento da soja na safra seguinte. Goiás é o maior produtor nacional de sorgo, com 822,5 mil toneladas estimados para a safra 2016/17, 48,4% do total nacional.

João Ricardo Souza Prado, agrônomo da cooperativa goiana Comigo, afirma, ainda, que o sorgo rebrota sozinho e “suja” a lavoura para o cultivo de soja. “É uma praga, tem que passar herbicida duas ou três vezes para ele sumir do solo. Por isso há quem prefira deixar a terra vazia a ter o sorgo”, diz ele.

Em termos financeiros, ambos tem perspectiva de margem negativa nesta safra 2017/18. “Se tudo der certo – e levando-se em conta o preço atual da saca de milho [R$ 21], o faturamento do produtor com milho será de R$ 2,1 mil por hectare. O sorgo, que está custando R$ 16,50, vai gerar R$ 1,1 mil”, calcula Palavro.

Mesmo assim, Beserra de Menezes, da Embrapa, insiste que o sorgo deve ser uma alternativa em parte da área. “Se não chover, o milho não rende nem 60 sacas”. Para ele, esse disparate nos números do milho e do sorgo se deve, em parte, a um certo descaso dos produtores com o sorgo. Muitas vezes, eles não fazem adubação ou qualquer outro trato, o que limita o rendimento. “Na Embrapa estamos tentando melhorar sementes e mostrar ao produtor que existe um mercado a ser explorado”.

A Embrapa também quer mostrar que o sorgo pode ser usado como substituto do trigo na alimentação humana. “Ele é livre de glúten e tem sabor mais suave. Além disso, altos teores de ferro, zinco, fibras e vitamina E”, afirma Valéria Vieira Queiroz, nutricionista da Embrapa. Nos EUA, o cereal há tempos não está restrito às rações. Já é usado na produção de farinha, pães, xaropes e até cerveja.

Como nicho, o sorgo é super-rentável, diz a pesquisadora. “Um pacote de 200 gramas de sorgo custa R$ 5 – isto é, o quilo é R$ 30. Se fosse uma saca, seria R$ 1,8 mil. Enquanto isso, uma saca de 60 quilos de milho custa R$ 60”. Mas ela lembra que o sorgo para alimentação humana tem que obedecer a outro padrão de cultivo, de custo mais elevado, e não pode ter tanino.

Fonte: Por Fernanda Pressinott | De São Paulo