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Seminário sobre clima debate crédito para projetos "verdes"

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Leo Pinheiro/Valor

Alfredo Sirkis: "Existem recursos, mas investidores têm receio de vir para cá"

O Brasil precisa encontrar recursos para financiar o corte nas emissões de gases-estufa e a adaptação aos impactos da mudança do clima. Mercados de créditos de carbono, taxação ao carbono sem aumento da carga tributária e instrumentos como "green bonds", os títulos de financiamento da dívida que podem apoiar projetos sustentáveis, vêm ganhando espaço nos debates.

"Hoje está claro que os US$ 100 bilhões ao ano para combater a mudança do clima nos países pobres, promessa dos países desenvolvidos nas negociações internacionais, não irão acontecer, e isso antes mesmo do anúncio de Donald Trump de sair do Acordo de Paris. O Brasil precisa atrair recursos", afirma Alfredo Sirkis, secretário-executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas e diretor do Centro Brasil no Clima, que organiza anualmente o seminário Rio Clima. Finanças climáticas foi tema-chave na edição da semana passada, o Rio Clima 2017.

"Há recursos no mercado internacional, mas investidores têm receio de vir para cá por medo de mudanças cambiais e de políticas públicas. Precisam de garantias", disse Sirkis.

Os títulos verdes brasileiros ("green bonds", títulos da dívida de empresas emitidos no mercado internacional e direcionados a projetos sustentáveis) somaram US$ 2 bilhões até janeiro. Dez grandes investidores, como Santander, Zurich Brasil, BrasilPrev e Itaú, entre outros, assinam uma declaração onde reconhecem o crescimento do mercado internacional de títulos verdes e indicam o instrumento "como um dos mecanismos para financiar soluções para as mudanças climáticas".

"Temos certeza que a transição vai acontecer. Só não sabemos o ritmo dela. Por isso precisamos de um preço forte do carbono", defendeu o professor Emilio La Rovere, da Coppe-UFRJ, durante o seminário. " Não vejo outro país com condições melhores para que a transição ao baixo carbono possa acontecer do que o Brasil", disse.

"O Brasil tem uma janela de oportunidade única. Para uma crise de dinâmica de investimento, em que a indústria perde por falta de produtividade e competitividade, com um déficit de infraestrutura impressionante, somos o país-chave para combater e nos adaptar à mudança climática", acredita Rogério Studart, ex-Banco Mundial e hoje na Brookings Institution. Segundo ele, os bancos de desenvolvimento China Development Bank e o KfW alemão, "tornaram-se lideranças de finanças sustentáveis e criam oportunidades de exportar a indústria de seus países".

"É preciso um novo modelo de negócios que possibilite canalizar investimentos para atividades sustentáveis. Precisamos de uma engenharia financeira para permitir a canalização de recursos e, com políticas claras, dar previsibilidade aos investimentos", disse Everton Lucero, secretário de Mudança do Clima e Florestas.

O climatologista Carlos Nobre lembra que a pecuária de baixa produtividade responde por cerca de 50% das emissões de gases-estufa brasileiras. "Aumentar a produtividade da pecuária é relativamente barato e diminui a pressão do desmatamento", disse. Para o cientista, se o Brasil aumentar de 1,3 para 2 cabeças de gado por hectare, o país cumpre sua meta no Acordo de Paris. "Seria uma pecuária mais sustentável e lucrativa. Para isso, no entanto, é preciso mudar a cabeça do pecuarista."

A jornalista viajou ao Rio a convite do Instituto OndAzul

Por Daniela Chiaretti | Do Rio

Fonte : Valor