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Sem IPO, Biosev busca financiamento

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Depois de uma tentativa frustrada de abrir o capital, a Biosev, companhia de açúcar e álcool controlada pelo grupo francês Louis Dreyfus, está costurando um financiamento com bancos privados de cerca de R$ 500 milhões para investir na expansão de seus canaviais, apurou o Valor. Os controladores franceses também não descartam fazer um aporte de capital para dar maior fôlego à subsidiária brasileira, que pretendia levantar no mercado entre R$ 680 milhões a R$ 850 milhões para garantir sua expansão, se o IPO (oferta pública de ações) fosse bem-sucedido.

Os executivos da companhia tentaram de todas as maneiras fazer com que a abertura de capital desse certo, mas concluíram durante o "road show" nos Estados Unidos, Ásia e até América Latina, que seus papéis tinham pouco apelo no mercado. Ao mesmo tempo, a companhia tentou encontrar parceiros estratégicos, já considerando que a abertura de capital poderia ser descartada. Fontes familiarizadas com a operação informaram que o grupo tentou se associar, sem sucesso, à Petrobras e a fundos soberanos, como o asiático Temasek, que tem pesados investimentos em infraestrutura no Brasil. Procurada, a Petrobras não comenta o assunto. Um porta-voz da Temasek informou que apenas foram visitados durante o "road show". A Biosev informou que não vai comentar o assunto por estar em período de silêncio.

Se não bastasse o fracasso da operação, o malsucedido processo de IPO ainda vai forçar a "convivência" por mais dois anos entre a controladora com seus acionistas minoritários – entre os quais as famílias Biagi e Junqueira Franco -, cuja relação já não estava boa há alguns meses. A Biosev é resultado da fusão, realizada em 2009, entre a Louis Dreyfus Commodities Bioenergia com a Santelisa Vale, então controlada pelos Biagi e Junqueira Franco, dois dos mais tradicionais grupos sucroalcooleiros do país. De acordo com o prospecto da companhia, as duas famílias, representadas pela Santa Elisa Participações, somam participação de 10,1% na empresa. Os controladores têm fatia de cerca de 60% e fundos de investimentos estrangeiros e credores ficam com o restante.

Em acordo de acionistas firmado em outubro de 2009, os acionistas minoritários, além de credores como os bancos Bradesco, Itaú BBA, Santander, Votorantim, HSBC, teriam direito garantido de exercer a opção de venda de suas ações à companhia no dia 28 de agosto, caso a abertura de capital não fosse bem-sucedida. Mas os bancos que participaram do processo de IPO podem pedir um "waiver" (espécie de perdão) de até dois anos para que a empresa tente novamente abrir seu capital (ver quadro ao lado).

A Biosev planejava fazer a emissão de um lote inicial de 41,212 milhões de ações ordinárias em oferta primária e estimou uma faixa de preço entre R$ 16,50 e R$ 20,50 por papel, o que possibilitaria levantar R$ 680 milhões a R$ 845 milhões. Caso houvesse excesso de demanda, a Biosev poderia oferecer mais 6,182 milhões de ações ordinárias em lote suplementar e 8,242 milhões de ações em lote adicional, podendo alcançar de R$ 1,14 bilhão.

No entanto, a baixa receptividade desses papéis no mercado levaram os acionistas a pedir para que o IPO fosse suspenso, uma vez que o valor da empresa poderia derreter. "Além das incertezas criadas pela crise global, as indústrias do setor sucroalcooleiro no Brasil não estão passando por um bom momento", disse uma fonte. "O mercado não quer comprar papéis que ofereçam riscos, como seria o caso dessa empresa."

Os investimentos de expansão da empresa são considerados estratégicos para que a companhia ganhe maior liquidez quando tentar ir novamente ao mercado. Seu plano é saltar dos 30 milhões de toneladas para 40 milhões de toneladas. Na safra 2011/12, a companhia processou 27,5 milhões de toneladas, recuo de 18% sobre o ciclo anterior. A capacidada total de suas unidades soma 40 milhões de toneladas.

A má fase do setor nos últimos anos tem abatido diversas usinas. As incertezas globais, além dos fundamentos baixistas para esse segmento, também levaram a Copersucar a desistir de iniciar o processo de abertura de capital. Com a morte do principal acionista global, Robert Louis-Dreyfus, há três anos, aumentaram os rumores de que os ativos de bionergia do grupo no Brasil fossem vendidos por conta da crise do setor e alto endividamento da empresa.

Em prospecto, divulgado na CVM, a Biosev informou que possuía um endividamento bruto de R$ 5,471 bilhões no dia 31 de março deste ano, dos quais 67,1% correspondiam a empréstimos e financiamentos de longo prazo. No mesmo período do ano passado, o endividamento estava em 3,628 bilhões, dos quais 71,1% correspondiam a empréstimos e financiamentos de longo prazo.

Com 13 unidades produtoras, cuja capacidade atinge 40 milhões de toneladas, a companhia francesa começou a operar em cana-de-açúcar no Brasil em outubro de 2000, com a compra da usina Cresciumal, em Leme (SP). Nos últimos anos, a companhia foi expandindo seus negócios no Brasil por meio de importantes aquisições, como a compra dos ativos do grupo Tavares de Mello. A grande tacada foi a associação com a Santelisa Vale, fusão que permitiu à empresa saltar para os tão sonhados 40 milhões de toneladas por ano.

No mesmo ano da fusão entre Santelisa e Louis Dreyfus, as famílias Biagi e Junqueira Franco tinham unido forças por conta da crise pela qual passavam. Um ano antes, o grupo Cosan, capitaneado pelo empresário Rubens Ometto Silveira Mello, tinha feito uma oferta hostil para comprar os ativos dos Junqueira Franco, a Vale do Rosário, que foi recusada. Mesmo após se unirem, a situação financeira da Santelisa Vale estava delicada, levando as famílias a aprovarem a fusão com os franceses. Fontes ouvidas pelo Valor afirmam que a relação das duas famílias com os controladores já não estava muito boa e o IPO seria a chance para que parte deles deixasse a Biosev. No entanto, com os papéis pouco atraente no mercado, os próprios minoritários concordaram em suspender a abertura de capital, na expectativa de uma liquidez maior futura. Procurados, os minoritários não comentaram o assunto.

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Fonte: Valor | Por Mônica Scaramuzzo | De São Paulo