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Selo ‘verde’ pode reduzir custo de captação

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Em abril deste ano, a companhia espanhola de energia Iberdrola captou € 750 milhões em uma emissão de bônus com prazo de oito anos. A demanda superou em quatro vezes esse valor e os papéis foram lançados com cupom de 2,5% ao ano, o mais baixo já pago por uma empresa do país.

Um "selo verde" atestando que os recursos captados seriam usados em projetos de energias renováveis foi fundamental para que a empresa conseguisse captar a um custo tão baixo, afirma o chefe de mercado de capitais e gestão de riscos da Iberdrola, Ignácio Real de Asúa.

Os bônus "verdes" são uma modalidade ainda pequena, porém crescente, de títulos de dívida. Em termos de formato, regras e negociação, são idênticos a títulos de dívida convencionais. No entanto, precisam ser certificados por uma entidade independente que ateste a destinação dos recursos a projetos sustentáveis do ponto de vista ambiental.

A soma das emissões de bônus desse tipo chega a US$ 40 bilhões neste ano, bem acima dos US$ 11 bilhões registrados em 2013, segundo Sean Kidney, fundador da Climate Bonds Initiative, organização não governamental que promove investimentos em projetos e ativos sustentáveis. O órgão reúne bancos como HSBC, Nomura e UniCredit.

O volume ainda é pequeno, levando-se em conta que o mercado de dívida movimenta trilhões de dólares por ano. Para se ter uma ideia, o montante de bônus "verdes" emitidos no mundo todo é inferior aos US$ 48 bilhões captados por emissores brasileiros no exterior de janeiro a novembro.

No entanto, o potencial é muito maior, diz Kidney. Segundo ele, o mercado estimado de bônus relacionados a projetos ambientais é de US$ 502 bilhões.

"O que precisa acontecer para fazer o mercado dar certo é confiança. Precisamos de um padrão e de certificação para garantir que um projeto é verde", disse Kidney, que esteve no Brasil na semana passada para participar de evento sobre o tema promovido pelo Santander e pela organização sem fins lucrativos Sitawi Finanças do Bem.

Hoje, não há um órgão único ditando os padrões a serem seguidos e a certificação pode ser feita por diversos agentes. "Os benefícios [de uma emissão certificada] são mais credibilidade, redução de riscos de reputação e dar mais confiança aos investidores, o que ajuda a reduzir custos de captação", afirma Ricardo Zibas, diretor de sustentabilidade da KPMG, consultoria que tem atuado na certificação dos papéis.

No Brasil, onde ainda não foi feita nenhuma emissão do tipo, o governo estuda como aplicar o conceito, diz Matheus Cavallari, secretário-adjunto de políticas microeconômicas do Ministério da Fazenda. Segundo ele, algumas das emissões de debêntures incentivadas feitas no país se referem a projetos sustentáveis e poderiam receber uma etiqueta "verde" para ser negociadas como tal.

É preciso, segundo Cavallari, definir quem poderá conceder essa certificação: o governo ou agentes privados. "O desafio é dar um selo verde a uma debênture de infraestrutura que já é verde", afirma. Ele também participou do evento.

As emissões de títulos verdes não precisam se restringir a bônus ou debêntures, afirma Kidney. "Não é uma questão de ativo, mas de uso dos recursos."

Em princípio, poderia haver emissões de letras financeiras e até letras de crédito imobiliário classificadas como verdes, diz Cristina Schulman, chefe da área de mercado de capitais do Santander. A ressalva é que teria de ser comprovado o uso do dinheiro em projetos ligados ao ambiente, como a construção de um edifício verde, por exemplo.

Segundo Cristina, os custos para obter o selo verde são pequenos dentro do custo total de uma emissão. A documentação e os procedimentos são os mesmos. "A oportunidade é justamente o contrário, a possibilidade de reduzir o custo da operação", diz a executiva, acrescentando que esse benefício ficará mais evidente à medida que houver maior liquidez para os papéis.

Para Kidney, mais que a redução nos custos, as principais vantagens são o engajamento e a diversificação da base de investidores.

No caso da Iberdrola, 57% dos títulos foram alocados para gestores de fundos que direcionam recursos para projetos sustentáveis. Satisfeito com a experiência, Real de Asúa diz que a companhia vai avaliar, sempre que possível, a emissão de bônus nessa modalidade. "Vai depender das condições de mercado e do tempo de execução", afirma.

Para se preparar e obter a certificação "verde", a Iberdrola levou duas semanas. Num cenário mais volátil, a tendência é fazer uma operação convencional, que muitas vezes pode ser lançada e concluída em um único dia.

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Fonte: Valor | Por Talita Moreira | De São Paulo