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SeedCorp encolhe, ajusta foco e faz aposta em especialização

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Silvia Costanti/Valor

Mário Carvalho, presidente da SeedCorp|HO: especialização em sementes

Muita coisa mudou na SeedCorp, empresa que produz e comercializa sementes, desde a sua fundação, no fim de 2013. A companhia, que nasceu da união entre sementeiras do Cerrado e ex-executivos de multinacionais do segmento, tinha como meta faturar R$ 1 bilhão em 2018. Mas com a saída de alguns sócios – embora um novo tenha ingressado -, a receita da empresa deverá ficar bem abaixo do objetivo inicial.

Em 2017, a companhia, que mudou até de nome, espera faturar R$ 300 milhões e, agora a previsão para o ano que vem é que a receita de vendas fique em R$ 360 milhões, conforme o presidente Mário Carvalho.

Uma das razões para o avanço mais lento foi a mudança na estrutura societária da companhia no começo deste ano. Ao mesmo tempo em que a SeedCorp negociava uma sociedade com a argentina HO, especializada em melhoramento genético de soja, em janeiro passado as sementeiras Petrovina, de Mato Grosso, e São Francisco, de Goiás, deixaram o negócio. As sementeiras não tinham interesse em entrar na área de germoplasma, que exige grandes investimentos mas abre outra frente de receita: a venda de royalties para a replicação de sementes por outras sementeiras.

Nesse modelo, os multiplicadores podem comprar um contrato de licenciamento das sementes de propriedade da empresa e pagam royalties por saca de semente produzida com a tecnologia desenvolvida pela "nova" SeedCorp|HO.

Coma entrada no mundo do germoplasma, da sociedade original na SeedCorp restou apenas a Produtiva, com unidades em Tocantins, Bahia, Minas Gerais e em Goiás, ainda que a São Francisco continue sendo uma das principais clientes da SeedCorp.

Essa nova configuração levou à redução da capacidade instalada da empresa, que caiu de 3,2 milhões de sacas de sementes de grãos – como soja e milho – para 1,5 milhão por ano. A diminuição explica a revisão na estimativa de faturamento.

Se perdeu capacidade instalada na produção de sementes, ao se associar com a HO, a SeedCorp ingressou de vez na área de pesquisa e desenvolvimento. Com isso, a SeedCorp|HO – com 50% de participação nas mãos da SeedCorp e a outra metade com a GDM Holding, a outra sócia na HO -, também mudou sua estratégia de negócios.

Foi com a nova sócia que a empresa passou a direcionar esforços para desenvolver germoplasma próprio e a apostar no licenciamento de sementes para multiplicadores. Neste ano, 5% do faturamento da empresa deverá ser originado nos licenciamentos e 95% na venda de produção própria. Mas, segundo Mário Carvalho, a tendência é que o faturamento com licenciamento aumente.

Conforme Carvalho, a HO já tinha dois centros de pesquisa, um em Primavera do Leste (MT), que cobre toda a parte norte do país, e outro na Argentina, em Ramallo, província de Buenos Aires, responsável pela demanda de cultivares na Argentina, Paraguai, Uruguai e Sul do Brasil.

A SeedCorp|HO planeja realizar investimentos de US$ 2 milhões por ano na área de pesquisas, disse Carvalho, e a maior parte dos recursos para esses investimentos deve ser proveniente de royalties e da comercialização de sementes.

O executivo explicou que a produção própria da SeedCorp|HO vai ficar no Norte do Brasil e que a empresa deverá ampliar sua participação no mercado com licenciamento das sementes de germoplasma próprio para outras empresas.

Em 2016, a empresa comercializou 1,1 milhão de sacas de sementes. Para este ano, o volume deve chegar a 2 milhões de sacas – as 1,5 milhão de sacas de produção própria e outras 500 mil dos licencimentos.

Originalmente, a SeedCorp era focada na comercialização de sementes de soja. Após quase quatro anos de existência, a empresa passou a atuar também com milho, trigo e sorgo. O milho foi introduzido em 2014 e as demais culturas vieram após a fusão com a HO. A sociedade, além de ampliar o leque de cultivos, permite a presença em outros mercados na América do Sul: Argentina, Paraguai e Uruguai.

Mas a soja deve continuar a ser a principal cultura para a empresa, com uma participação de mercado prevista em 17% em até cinco anos. Essa participação incluirá produção própria e sementes licenciadas. Atualmente, a fatia da empresa no mercado brasileiro está entre 6% e 8%, de acordo com Ignacio Parodi, diretor de operações América do Sul e ex-presidente da HO.

Uma estratégia anterior à fusão e que deve ser mantida é a de parcerias para produção de sementes exclusivas de outras empresas. A produção de sementes de milho, por exemplo, é feita em parceria com a suíça Syngenta, controlada pela ChemChina. A múlti fornece um híbrido exclusivo de milho comercializado com marca SeedCorp|HO.

Num mercado em consolidação, com grandes empresas se unindo, Carvalho diz que a especialização em sementes é um diferencial. "Nessas grandes negociações, semente não é o foco, mas um caminho para vender mais [agro] químico".

Por Kauanna Navarro | De São Paulo

Fonte : Valor