Safra nacional de cacau deve suprir demanda

Após duas décadas importando cacau do oeste da África para garantir a produção nacional de derivados da amêndoa e de chocolate, o Brasil deve colher nesta safra 2015/16 um volume suficiente para suprir a atual demanda industrial. Essa autossuficiência, que está nos cálculos tanto de produtores como da indústria, é resultado da recuperação da produção cacaueira nacional, puxada pelo Pará, mas também pelo mau momento das processadoras, que têm reduzido a moagem por causa da fraca demanda por chocolate no país.

As evidências de que a safra atual está em uma curva crescente estão nos volumes recebidos pelas indústrias. Desde o início da colheita, em maio, até 9 de agosto, as processadoras receberam 100,1 mil toneladas de cacau retirados de lavouras brasileiras, 26% a mais do que no mesmo período do ciclo passado e mais que o dobro do mesmo intervalo da safra 2013/14, de acordo com a TH Consultoria, de Salvador.

Esse avanço dos recebimentos das indústrias – um indicador da produção – ocorreu mesmo em meio a estoques abarrotados de cacau nas processadoras.

A surpresa positiva vem do Pará. Após anos de investimento no aumento da produção com incentivo da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac), o Estado deve colher ao menos 100 mil toneladas, calcula Jay Wallace Mota, superintendente da Ceplac no Pará.

Da safra passada para a atual, uma área de 12 mil hectares passou a dar frutos, somando agora 118,7 mil hectares em plena atividade no Estado. A produtividade também está ganhando corpo. Na safra temporã, o rendimento tem alcançado, em média, 912 quilos por hectare, contra 900 quilos por hectare em 2014/15.

"E ainda tivemos uma vantagem. A produção foi concentrada entre maio e agosto, ideal porque é o período seco, o que permite melhor qualidade", destaca Jay Wallace Mota.

Apesar do avanço no Pará, a Bahia deve continuar líder da produção nacional. Henrique Almeida, presidente do conselho superior da Associação dos Produtores de Cacau (APC), que representa os cacauicultores de todo o país, estima que a produção total baiana pode superar as 140 mil toneladas.

A colheita da safra temporã na Bahia está chegando na reta final com a promessa de ofertar 90 mil toneladas, como no ano passado, segundo Thomas Hartmann, da TH Consultoria. O analista prefere ser mais cauteloso com a estimativa para a safra principal, cuja colheita começa em setembro.

Atrasos na colheita da safra temporã podem atrasar a florada da principal, mas não necessariamente prejudicarão a produtividade, diz. No ciclo principal da safra 2014/15, os produtores baianos colheram 65,5 mil toneladas.

Para Almeida, da APC, a safra brasileira de 2015/16, que termina em abril do próximo ano, pode encerrar com cerca de 240 mil toneladas colhidas, e a recuperação da produção é sustentável pelos próximos anos. "Os preços altos em 2014 fizeram com que os produtores plantassem mais, adensando as áreas", afirma.

No Pará, existem 34 mil hectares com cacaueiros que devem começar a dar frutos nos próximos cinco anos. "A cada ano, 8 a 10 mil hectares entram em produção. Isso nos garante incremento e estabilização na oferta", diz o superintendente da Ceplac. Até o próximo ano, os produtores paraenses devem plantar mais 10 mil hectares, que se somarão aos atuais 153 mil hectares plantados.

Já as indústrias questionam as projeções feitas pelos produtores para a safra nacional. Walter Tegani, secretário-executivo da AIPC – associação que representa indústrias que processam 95% da produção brasileira de cacau -, afirma que vê "indicativos de queda na produção na Bahia". Ele estima uma produção nacional de 210 mil toneladas, mas admite não haver embasamento técnico em sua projeção.

O descompasso entre as estimativas de produtores, indústria e do próprio IBGE, que calcula para este ano uma produção bem acima das projeções privadas, de 259,8 mil toneladas, é alvo de críticas das processadoras. A AIPC pretende inclusive se reunir com o Ministério da Agricultura nos próximos dias para discutir a metodologia de levantamentos de safra do instituto.

Porém, mesmo considerando a estimativa da indústria, a produção corresponderia à atual demanda industrial. Após uma queda de 9% na moagem do primeiro semestre, "deveremos encerrar o ano com um processamento novamente inferior, talvez chegando a 210 mil toneladas", afirma Tegani. O volume é o mesmo estimado pela entidade para a produção nacional.

A perspectiva de um menor processamento de cacau é justificada pela fraqueza do mercado interno este ano. Com menos dinheiro no bolso, os brasileiros têm poupado gastos extras, como com chocolate, o que já fez o setor reduzir sua produção em 9,9% no primeiro trimestre.

Apesar do aumento da produção de cacau, as importações brasileiras prosseguem, mas num ritmo bem menor. Desde maio – quando começou a safra – até julho, as indústrias adquiriram no exterior 192 quilos do fruto, segundo dados do Agrostat, sistema de estatísticas de comércio exterior do Ministério da Agricultura, levantados pelo Valor. Nesse mesmo período de 2014, foram importadas mais de 6 mil toneladas.

Por Camila Souza Ramos | De São Paulo
Fonte : Valor