Safra gaúcha de uva deve recuar até 65%

Videiras em Flores da Cunha, na região serrana do RS; geadas tardias, granizo e chuvas em excesso afetaram a produção
Os produtores de uvas do Rio Grande do Sul participaram ontem da abertura oficial da safra no Estado diante de uma expectativa de queda de até 65% na produção ante o ciclo 2014/15. Geadas tardias, granizo e chuva em excesso durante o desenvolvimento da cultura, entre setembro e dezembro, devem reduzir a colheita, o que afeta toda a cadeia produtiva. Além de causar prejuízos milionários aos viticultores, a quebra já aumentou os preços da matéria-prima e terá impacto sobre os custos e a oferta de derivados como vinhos e sucos.

Na região serrana do nordeste gaúcho, que concentra 38 mil dos 46 mil hectares de videiras no Estado, o agrônomo da Emater-RS em Caxias do Sul, Enio Todeschini, prevê uma produção de 304 mil toneladas neste ano, contra 855 mil toneladas em 2015. O cálculo inclui as uvas processadas pela indústria na produção de vinhos finos e de mesa, espumantes e sucos, as vendidas in natura e as usadas na elaboração caseira de derivados.

Conforme Todeschini, os 15 mil produtores da região deixarão de faturar pelo menos R$ 380 milhões em 2016 com o recuo dos volumes, considerando a cotação das uvas comuns – que representam cerca de 85% da produção – a R$ 0,80 por quilo em 2015 e a R$ 1 agora. "É uma conta conservadora", afirma.

Segundo o presidente do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin), Dirceu Scottá, no caso de viníferas como moscato e cabernet sauvignon, as indústrias estão pagando até R$ 2 ou R$ 2,20, contra R$ 1,20 ou R$ 1,60, respectivamente, em 2015.

Em todo o Estado, a colheita que vai de janeiro até meados de março deve render cerca de 400 mil toneladas, a mais baixa da série histórica iniciada em 2005, ante as 920 mil toneladas estimadas do ano passado, acrescenta o agrônomo do escritório central da Emater, em Porto Alegre, Antônio Conte. Como consequência, os produtores estão negociando até a prorrogação do pagamento das parcelas do seguro agrícola com as seguradoras, com a intermediação do Ministério da Agricultura.

De acordo com o IBGE, que estima em 876,3 mil toneladas a safra passada no Rio Grande do Sul, o Estado é o maior produtor de uvas do país, seguido por Pernambuco, com 237,4 mil toneladas também em 2015. No mesmo período, a produção nacional foi de 1,533 milhão de toneladas da fruta.

Para a indústria de derivados, a alta dos custos da matéria-prima neste ano ficou entre 20% e 40% e parte disso terá de ser repassada aos preços finais de vinhos, sucos e espumantes, calcula Scottá. O Ibravin prevê que as empresas do setor deverão processar 350 mil toneladas de uvas neste ano, 50% a menos do que em 2015 e também o menor volume da série histórica iniciada em 2001 e que até agora havia registrado o pior desempenho em 2003, com 383,4 mil toneladas.

A escassez de matéria-prima ainda pode provocar a falta de sucos de uva naturais e integrais no mercado. Praticamente não há estoques do produto, que é elaborado somente no momento da safra e somou 108,3 milhões de litros vendidos no país em 2015, com alta de 29,8% sobre 2014, explica Scottá.

No caso dos vinhos finos, com vendas de 19,7 milhões de litros no mercado interno no ano passado (expansão de 2,6%), e espumantes, com 18,7 milhões de litros (mais 11,9%), há estoques para dois anos. Nos vinhos comuns, que cresceram apenas 0,7% sobre 2014, para 207,6 milhões de litros, as reservas são um pouco menores, mas também não deve haver problema de abastecimento, diz o presidente do Ibravin.

Os problemas climáticos nas fases de brotação e floração das videiras chegaram a ameaçar a qualidade das uvas, mas para alívio dos produtores o tempo melhorou a partir do fim de dezembro, com ocorrência de dias quentes e de sol. Isso favoreceu a maturação das frutas, que ficaram com boa concentração de açúcar e acidez equilibrada, acrescenta o chefe geral da Embrapa Uva e Vinho, em Bento Gonçalves, Mauro Zanus.

Conforme Scottá, do Ibravin, ainda é cedo para estimar o desempenho das vendas de vinhos, sucos e espumantes em 2016. "Mas esperamos crescer", afirma. Além do impacto negativo da safra de uva, o setor se ressente do aumento de três pontos percentuais do ICMS no Rio Grande do Sul neste ano, ante os 17% vigentes até 2015, e também da elevação do Imposto Sobre Produtos Industrializados (IPI) a partir de dezembro, explica.

Leia mais em Venda de sucos encolhe em 2015 e setor espera novo recuo este ano

Por Sérgio Ruck Bueno | De Porto Alegre

Fonte : Valor