Safra 2014/2015 terá redução de rentabilidade ao produtor

Enquanto os melhores resultados estão com a soja, o milho e o trigo não devem pagar os gastos realizados pelos agricultores na lavouras

Marina Schmidt

A perspectiva positiva para a colheita da safra desde ano não é suficiente para trazer tranquilidade aos produtores gaúchos, que terão dificuldade para fechar as contas, segundo estudo da Federação das Cooperativas Agropecuárias do Rio Grande do Sul (FecoAgro). O agricultor local está sofrendo com um movimento que é o revés das supersafras passadas. Com elevação da produção, a oferta superior tende, naturalmente, a baixar os preços pagos ao produtor. Soma-se a isso o crescimento dos custos de produção e os números revertem-se contra o setor.
De acordo com a entidade, há uma queda significativa nas cotações agrícolas nos últimos meses, o que tem elevado a preocupação de associações do setor. O economista responsável pelo estudo, Tarcísio Minetto, sinalizou para a perspectiva de que a situação leve a atividade a murchar. Entre as razões para a redução nos preços pagos ao produtor, Minetto citou a safra cheia dos EUA, ampliando a disponibilidade das commodities, num claro sinal de oferta versus demanda. Nas contas pesam, ainda, os custos, que estão elevados em virtude de ajustes técnicos necessários, como necessidade de aumento de aplicação de fungicidas e inseticidas, alta de preços nos agroquímicos, serviços e combustíveis.
Para Paulo Pires, presidente da FecoAgro, é preciso levar em consideração que “os últimos dois anos foram de colheitas boas e preços excepcionais”. Pires destaca ainda que, também nos últimos anos, os produtores fizeram investimentos, o que pode complicar um pouco mais as condições daqueles que comprometeram excessivamente a renda com crédito. “Estes podem encontrar um pouco mais de dificuldade, mas não por conta da atividade”, detalhou, lembrando que não há perspectiva de que os agricultores enfrentem graves problemas com endividamento.
O impacto desse movimento afeta as principais culturas do Estado – soja, milho e trigo. No estudo elaborado pela FecoAgro, foram considerados os principais gastos de produção para propriedades com nível médio de uso tecnológico, constando que, se mantidos os preços verificados neste mês, a receita de comercialização do milho e do trigo não paga os custos produtivos. A soja é a única cultura com remuneração acima dos custos, ainda assim gerando ganhos mais baixos do que nos últimos anos.
Com um custo de produção de R$ 2.097,34 por hectare, a soja – sendo vendida a R$ 54,00 a saca – gera ganhos de R$ 2.700,00 para o mesmo referencial de área. A diferença entre custo e rendimento aponta para rentabilidade média de R$ 602,66 neste ano (28,73% a menos do que na safra passada, quando a rentabilidade alcançava R$ 984,71). Essa é uma das razões que tem levado agricultores a investirem na cultura. A FecoAgro projeta que a área de plantação de soja aumente em 5%, chegando a 5% de hectares com produção atingindo 13 milhões de toneladas.
O preço do milho pago ao produtor, reduzido em 10,75%, gera um efeito praticamente de empate nas contas finais. Com custo estimado em R$ 2.183,63 por hectare, remunerados em R$ 2.100,00, a rentabilidade fica levemente negativa, com prejuízo de R$ 83,63. O estudo aponta que o produtor precisará colher 104 sacas do grão por hectare para atingir o ponto de equilíbrio (fechar sem lucro nem perda). Só a partir desse patamar é que a cultura passa a gerar ganhos.

Triticultores sofreram a maior diminuição nos valores recebidos

O trigo foi a cultura que sofreu a maior redução no preço pago ao produtor. De setembro de 2013 para setembro de 2014, a variação foi de queda de 27,74%, com os preços caindo de R$ 35,98 para R$ 26,00 a saca. Os custos de produção avaliados no estudo são de R$ 1.902,54 por hectare, com produtividade de 50 sacas. Se comercializado ao preço consultado na primeira semana deste mês, R$ 26,00, o prejuízo para o produtor é de R$ 602,54 por hectare. Caso a saca seja vendida ao preço do trigo pão tipo 1 (R$ 33,45), o prejuízo reduz para R$ 230,04. Para atingir o ponto de equilíbrio, o agricultor precisa produzir 73 sacas de cereal por hectare, caso venda pelo preço mínimo do trigo pão tipo 1.
A previsão de alta disponibilidade de trigo é outro fator que amplia do setor, que projeta a necessidade de contar com estímulos do governo federal para equilibrar as contas. No estudo, a FecoAgro apresentou as estimativas da safra brasileira para o cereal, que deve ser de 7,5 milhões de toneladas (3,3 milhões de toneladas só no Rio Grande do Sul, que já conta com 400 mil toneladas remanescentes da safra anterior). Somando esse total às 251 mil toneladas importadas de janeiro a agosto deste ano, o suprimento de trigo deve chegar a 3,9 milhões de toneladas para uma demanda projetada em 1,4 milhão de toneladas para uso industrial, reservas para sementes e outros usos.
“O maior problema é o de liquidez das sacas, ou seja, colher e não ter para quem vender”, alerta Pires. Tanto Pires quanto Minetto destacam a importância de o Rio Grande do Sul começar a se organizar para exportação do cereal. Os representantes da FecoAgro também sinalizaram para a necessidade de mecanismos de apoio por parte do governo federal para oferecer liquidez aos produtores.
O presidente da FecoAgro destaca que o ministro da Agricultura, Neri Geller, anunciou, durante a Expointer, a liberação de R$ 150 milhões para realização de leilões de Prêmio Equalizador ao Produtor Rural (Pepro) para o trigo e R$ 200 milhões para Aquisição do Governo Federal (AGF) do cereal.

PIB do agronegócio acumula alta de 1,9% no primeiro semestre

O Produto Interno Bruto (PIB) do agronegócio cresceu 0,11% em junho e acumula alta de 1,9% no primeiro semestre de 2014, segundo levantamento da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP). A alta acumulada foi puxada, principalmente, pelos setores básicos, com aumento de 4,04%, de insumos, com 1,84%, e da distribuição, com crescimento de 1,57% no semestre. “Um dos fatores para a alta do PIB da agropecuária no semestre foi a expansão do faturamento médio da atividade, de 5,91%”, destacou a CNA.
Em linha com o segmento industrial geral, a agroindústria segurou a alta no PIB do agronegócio, mas ainda registrou crescimento de 0,1% no primeiro semestre. A agroindústria para a agricultura recuou 0,57% no período e o segmento agroindustrial só teve resultado positivo por conta da alta de 4,54% do PIB da indústria da pecuária na primeira metade de 2014.
O PIB da agricultura recuou 0,28% em junho e acumula alta de apenas 0,6% em 2014. O segmento primário na agricultura cresceu 2,91% no primeiro semestre e foi o principal responsável pelo desempenho da cadeia produtiva agrícola. Os segmentos de insumos e distribuição tiveram variação de 0,98% e 0,08%, respectivamente.
Já o PIB da pecuária cresceu 0,97% em junho e tem aumento acumulado de 4,90% nos seis primeiros meses de em 2014. O PIB do setor básico da pecuária avançou 5,52% no primeiro semestre, o da distribuição cresceu 4,54%, e o de insumos, 3,12%.

Fonte: Jornal do Comércio