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Só importação garante oferta de sardinha

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Getty Images

Pescador em Itajaí, no litoral de Santa Catarina; produção de sardinha no país caiu para apenas 15 mil toneladas este ano

Algo estranho ocorre no mar de Santa Catarina. Durante 13 dias, entre 25 de outubro e 6 de novembro, a Gomes da Costa, a maior processadora de pescados da América Latina, deu férias coletivas para mil funcionários e paralisou a produção de sardinha e atum em lata. Rara, a paralisação da fábrica de pescados se refletiu na produção de latas da empresa, que ficou parada por 15 dias, entre 6 e 20 de novembro, atingindo 200 funcionários.

Apesar de ainda não comprometer o abastecimento, na visão de analistas de mercado, a pior safra de sardinha dos últimos 20 anos foi provocada, possivelmente, por impactos ambientais causados pela mudança climática. E não só. Pesquisadores e ambientalistas afirmam que o problema se agravou pela má gestão dos recursos pesqueiros do governo.

O aquecimento das águas na costa brasileira, provocada pelo fenômeno do El Niño em 2016, pode estar na origem da falta de peixe que forçou a Gomes da Costa a ter que importar mais de 95% do produto. As férias forçadas aos funcionários aconteceram "precisamente num momento em que a empresa deveria trabalhar no limite da capacidade, preparando os estoques pra atender a Quaresma do ano que vem", informou a companhia.

Devido à falta de peixes na costa brasileira, a mudança na estratégia de suprimentos da Gomes da Costa foi drástica, confirmando as piores suspeitas da empresa. Em abril, o diretor industrial da companhia espanhola, Ivan Futcher, disse ao Valor que a importação poderia representar 90% da sardinha processada pela na unidade de Itajaí (SC). Em geral, cerca de 30% do peixe é importado.

Em 2017, a Gomes da Gosta teve de recorrer mais aos peixes trazidos de Omã, Marrocos e Arábia Saudita. A importação chegou a 47,5 mil toneladas de sardinhas no acumulado do ano até novembro ante 41,4 mil toneladas em todo o ano de 2016. Por sua vez, o volume de sardinha nacional processada caiu de 15,9 mil toneladas no ano passado para 2 mil toneladas, de acordo com a empresa.

No caso do atum, a Gomes da Costa também teve de importar quantidade maior. Problemas na safra de sardinha causam problemas na pesca do atum, porque a sardinha serve de isca ao outro. A isso teriam se somado novas regras de importação, o que provocou problemas no fluxo de produção.

Nesse cenário, a produção brasileira de sardinha despencou, de 90 mil toneladas anuais até 2015, para 45 mil toneladas no ano passado e somente 15 mil toneladas neste ano – o auge foi na década de 1970, quando a produção atingiu 270 mil toneladas, segundo o consultor e ex-ministro da Pesca Altemir Gregolin. "Seria a menor captura de sardinhas dos últimos 20 anos", disse Paulo Schwingel, professor pesquisador da Universidade do Vale do Itajaí (Univali).

Não há dados oficiais de capturas de peixes no Brasil desde 2013, diz Paulo Schwingel, especialista da Univali

De acordo com Gregolin, como a produção brasileira caiu muito, o país passou a adotar uma política de cotas de importações com tarifa reduzida de 2% para não comprometer os empregos na indústria. O peixe é trazido in natura e processado pelas indústrias instaladas no Brasil – as principais empresas do setor são Gomes da Costa e Camil.

"O que explica essa queda de produção são fatores climáticos, mudança da temperatura de água, deslocamento de estoque, e não esforço de pesca", avalia Gregolin. "Mas risco de desabastecimento não tem", garantiu.

Pesquisadores alertam para o fato de o governo não monitorar mais o setor desde 2011, e ter transformado o que foi um Ministério de 2009 a 2015, em uma secretaria de movimento pendular. Depois da extinção, a Pasta virou uma secretaria do Ministério da Agricultura. Neste ano, migrou para o Ministério dos Indústria, Comércio Exterior e Serviços (Mdic). Agora, está em processo de transição para se tornar uma secretaria especial vinculada à Presidência da República.

De acordo com Schwingel, da Univali, entre 2013 e 2016 não há dados oficiais de captura de peixes no Brasil, a não ser estimativas de especialistas. "O governo monitorava cerca de 200 espécies de captura, e isso parou", disse. Segundo o professor, o que existe são dados levantados em projetos específicos relacionados ao licenciamento do pré-sal.

Para o pesquisador, o que ocorreu com a sardinha se explica por duas frentes. "Uma delas está associada a características naturais, mas a outra, ao esforço pesqueiro. Estamos tirando muito mais do que a capacidade de a natureza de se refazer. Não estamos fazendo uma pesca sustentável", afirmou.

Schwingel disse, no entanto, que esse desequilíbrio na captura não é ilegal. "Todos os barcos estavam licenciados legalmente para a operação de pesca. A responsabilidade não é dos pescadores e dos armadores, mas sim de quem liberou, que foi o governo". Nos últimos sete anos as embarcações se tornaram mais eficientes, agravando a situação, de acordo com ele.

"O setor da pesca no Brasil tem um problema grande de governança, de falta de políticas públicas", concorda Anna Carolina Lobo, coordenadora do programa Mata Atlântica e Marinho do WWF-Brasil. "O Ministério é tido como moeda política de troca. Técnicos são demitidos, e o recurso foi cortado", disparou. De acordo com a especialista, o caso das sardinhas não é o único. "O polvo também está acabando. Os estoques estão em total colapso, principalmente das espécies com maior valor comercial".

Anna Carolina lembra ainda que a crise é global. Um relatório do WWF indica que 75% dos estoques pesqueiros estão superexplorados no mundo. "É muito preocupante em um país como o Brasil, que não monitora, não tem plano de gestão".

Por Daniela Chiaretti, Luiz Henrique Mendes e Cristiano Zaia | De São Paulo e Brasília

Fonte : Valor