Risco climático estimula a contratação de seguros

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Gláucio Toyama, do BB e Mapfre: "Apenas R$ 30 bilhões estão protegidos"

Os executivos de seguros estão de olho na riqueza gerada pelo agronegócio, que representa 22% do Produto Interno Bruto (PIB). "O valor bruto da produção agrícola é de R$ 500 bilhões e apenas R$ 30 bilhões estão protegidos. Isso mostra o grande potencial a ser explorado", afirma Gláucio Toyama, diretor de agronegócios do grupo BB e Mapfre, líder absoluto do segmento de seguro rural.

A exposição ao risco climático é a maior ameaça e por isso conta com subsídio do governo. Estudo do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) revela que o programa de subvenção ao seguro rural vem crescendo, passando dos R$ 50 milhões em 2005 para R$ 3,6 bilhões em 2016. Mais de R$ 3 bilhões foram pagos em indenizações nesse período. Em 2016, o volume de indenizações chegou a R$ 1 bilhão.

Até setembro deste ano, o Mapa liberou duas tranches de subsídios pouco inferiores a R$ 400 milhões para a execução do programa de subvenção ao prêmio do seguro rural. "O programa chegou perto do estabelecido, mas para 2018 o previsto está abaixo dos R$ 400 milhões desta safra. Temos apenas R$ 260 milhões e disposição grande para conseguir elevar esse número", conta Toyama.

Apesar do crescimento, o potencial ainda é enorme. Em 2016, dos 60,7 milhões de hectares de grãos cultivados, 5,6 milhões de hectares (9%) estavam protegidos por algum tipo de apólice contra riscos climáticos. "Um percentual muito pequeno", destaca o executivo. Nos EUA, de 128,8 milhões de hectares de grãos, 94,5% estão segurados.

Segundo Toyama, em razão do limitado subsídio, os produtores já começam a comprar seguro mesmo sem o apoio do governo. "O Sul do país gerou mais de 1 mil pedidos de indenizações neste início de período de vendaval e granizo, e isso desperta o interesse dos produtores", informou.

José Carlos Cardoso, CEO do IRB Brasil Re, contou que o ressegurador trabalha para se aproximar mais desse público com objetivo de desenvolver soluções específicas voltadas às suas realidades. "A estratégia da carteira é aprimorar o relacionamento para entender como pensa o produtor no seu dia a dia, quais são seus riscos e ameaças e, assim, identificar oportunidades para nossa empresa", diz.

A Swiss Re Corporate Solutions lançou o seguro paramétrico, que cobre os prejuízos financeiros decorrentes das variações climáticas. "Trouxemos o produto para grandes produtores e outros participantes do mercado", diz David Somlo, responsável por agro e energia da Swiss Re, que também atua com a venda de soluções de seguro de produtividade, pecuária, maquinário agrícola e bens, além do seguro de clima, uma grande inovação do mercado.

"Essas alterações climáticas provocaram mundialmente grandes perdas financeiras para as companhias. A criação desse seguro pode reduzir a incerteza para toda a cadeia de valor", comenta Mateus Angelo, recomenda o especialista da Aon Brasil.

A Sompo destaca números da Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotivos (Anfavea). Até agosto, foram vendidas 37.841 máquinas agrícolas. Nessa conta estão incluídos tratores de rodas e esteiras, colheitadeiras, cultivadores motorizados e retroescavadeiras. "Os empresários do agronegócio continuam a investir em insumos, máquinas e implementos agrícolas, no transporte da safra e demais operações desse ramo que também vão demandar a contratação de seguros", diz Adailton Dias, diretor de produtos e sinistros da Sompo Seguros.

O volume de novos negócios da corretora Marsh no agronegócio cresceu 61% no acumulado de janeiro a setembro em relação ao mesmo período do ano anterior. "Temos visto no campo drones equipados com sensores de precisão atuando no monitoramento constante em diversos fatores de risco e permitindo identificar anomalias em uma cultura específica. Isso proporciona ao segurador, ao agricultor e à agroindústria trabalhos em conjunto para aprimorar o gerenciamento de risco", explica José Zanni, líder da prática de agronegócio.

O uso de inteligência artificial para plantio ainda está em implantação no mercado agrícola. Segundo Somlo, da Swiss Re, são necessárias mais safras para que os benefícios na redução das perdas sejam efetivamente incluídos no cálculo do seguro, pois ainda existe muita variação de resultados e poucos dados históricos que possam comprovar a mudança.

Júlia Guerra, diretora de agronegócios da corretora JLT, afirma que as soluções para carteiras de armazenagem e transporte podem ser a chave para o agronegócio, pois iriam facilitar a gestão do negócio, exigindo um pensamento holístico do corretor. "Além dos riscos financeiros, tanto na securitização como na proteção da carteira, com seguros estruturados de crédito."

De acordo com os entrevistados, a expectativa é positiva para 2018 pela transformação digital, com visão focada no cliente final.

Por Denise Bueno | Para o Valor, de São Paulo

Fonte : Valor