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Resultados financeiros da companhia indicam fôlego para suportar ‘tremor’

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Apesar do turbilhão provocado pela delação premiada dos irmãos Joesley e Wesley Batista, o que certamente vai reduzir o acesso da JBS a crédito, o perfil de endividamento da companhia não parece ser alarmante. A dívida líquida da empresa em 31 de março equivalia a 4,2 vezes sua geração potencial de caixa medida pelo lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda, na sigla em inglês).

Os custos da rolagem da dívida de curto prazo podem até aumentar, segundo uma fonte, mas o passivo deve ser rolado. Além disso, a holding controladora J&F dispõe de ativos que podem ser vendidos para gerar liquidez, como a Vigor e a Alpargatas. A própria JBS tem diversas controladas que, caso necessário, poderiam ser alienadas e reforçar o caixa.

Em 31 de março, a dívida bruta da JBS somava R$ 47,8 bilhões, dos quais 31% (R$ 14,8 bilhões) venciam em até um ano. Da dívida de curto prazo, 74% estão atrelados a contratos de financiamentos de exportação ("trade finance"), que em geral são renováveis mais facilmente. "A conversa aqui é sobre custo", disse uma fonte, indicando que os bancos vão encarecer esse crédito para a empresa.

Em caixa, a JBS tinha R$ 10,7 bilhões no fim de março. Na semana passada, a empresa também aumentou sua liquidez nos Estados Unidos. A controlada Pilgrim’s Pride, de carne de frango, obteve US$ 1,5 bilhão em linhas de crédito rotativo e outras linhas de crédito ("term loan") com um sindicato de bancos.

Também há um balanceamento de dívidas que expõe menos a empresa à volatilidade cambial e às taxas de juros mais altas do Brasil. Da dívida total da JBS no fim do primeiro trimestre, 47% estavam alocados na subsidiária JBS USA – ou seja, fora do Brasil. A subsidiária Seara concentrava mais 11,5%, e a JBS S.A, 41,5%.

O efeito da variação cambial sobre a parcela de dívida que está no balanço da empresa americana não afeta o resultado financeiro da JBS no Brasil. O impacto é registrado apenas no patrimônio líquido, como preveem as normas contábeis do padrão IFRS.

Ainda assim, a exposição líquida cambial para fins de efeito no resultado financeiro era passiva de R$ 21,9 bilhões em março.

Isso se explica porque a soma das dívidas da companhia em moeda estrangeira supera em muito os ativos financeiros denominados em dólar. Na prática, isso significa que o efeito imediato de uma alta do dólar, como a que ocorreu ontem após a divulgação da delação de executivos da empresa, é uma perda financeira no balanço em reais.

Com a alta de 8% que o dólar teve ontem, esse efeito negativo – embora sem impacto imediato no caixa – poderia ser estimado em R$ 1,7 bilhão. Esse cálculo, contudo, leva em conta a exposição do fim do trimestre, e não possíveis variações de saldo que tenham ocorrido desde então (ver mais abaixo sobre investigação sobre compra de dólares).

Até o primeiro trimestre do ano passado, a JBS usava regularmente contratos de derivativos com posição comprada em dólares na casa de dezenas de bilhões de reais, com o objetivo alegado de zerar essa grande exposição, que existe há muito tempo.

Mas a empresa deixou de usar esses instrumentos em volumes relevantes a partir do segundo trimestre de 2016, logo depois de sofrer uma perda de R$ 5,8 bilhões com esses contratos de janeiro a março do ano passado, período em que o dólar caiu acentuadamente e levou a empresa a amargar um prejuízo de R$ 2,7 bilhões no primeiro trimestre de 2016.

O argumento oficial da companhia era de que o câmbio estava mais estável e que a proteção não era mais necessária. Apesar do efeito negativo imediato que a alta do câmbio causa no balanço da JBS, o dólar caro beneficia a companhia operacionalmente, uma vez que a empresa tem parcela relevante de suas vendas feitas diretamente no exterior – pelas subsidiárias – e também por exportações realizadas a partir do Brasil.

 

Por Luiz Henrique Mendes e Fernando Torres | De São Paulo

Fonte : Valor