Restrição ambiental na China pode elevar preço de defensivos em 30%

Silvia Costanti/Valor

Fornecedor está com receio de não ter produto, diz Rodrigo Gutierrez, da Adama

Após um ano praticamente sem vender, com estoques muito altos no canal de distribuição brasileiro, a indústria de agrotóxicos deve ter mais um ano complicado. A preocupação agora é com a escassez de matéria-prima para a produção dos defensivos agrícolas.

O cenário de oferta apertada decorre do endurecimento das leis ambientais na China – maior produtora de matérias-primas para a indústria química -, o que provoca o fechamento de fábricas e o aumento dos preços de princípios ativos nas indústrias remanescentes. Diante disso, a expectativa de analistas é que os defensivos tenham aumento de no mínimo 30% este ano.

O maior temor hoje é que haja falta de produtos. Já há agricultores reclamando de escassez de glifosato, um dos principais herbicidas usados nas lavouras de soja. "Estamos tentando construir estoque, mas os nossos fornecedores estão com receio de não ter produto", disse Rodrigo Gutierrez, presidente da Adama no Brasil, fabricante de defensivos controlada pela ChemChina. Segundo ele, as indústrias no mundo precisarão de dois anos para se adaptar.

"Já não temos glifosato para vender faz cerca de três meses. O mercado inteiro não tem", afirmou. Nesse cenário, a Monsanto tem sido beneficiada. O lucro da empresa cresceu quase cinco vezes no trimestre encerrado em novembro, para US$ 171 milhões, com a alta do glifosato, produto desenvolvido por ela.

Em dezembro, Rodrigo Santos, presidente da Monsanto Brasil, afirmou que o glifosato produzido pela empresa tem pouca dependência dos fornecedores chineses, diferentemente do que acontece com as concorrentes.

Segundo Gutierrez, o preço do glifosato subiu 25% em 2017 para a indústria e há princípios ativos para formulação de agroquímicos que subiram até 150%. "Há um intermediário de um inseticida que fabricamos que ficou quatro vezes mais caro", disse, acrescentando que antes havia quatro fornecedores da matéria-prima na China e hoje há só um.

Mas a elevação dos preços também gerou um efeito positivo para a indústria em 2017 e ajudou a equilibrar os estoques nos canais de distribuição no Brasil. Segundo a consultoria Kleffmann, do total vendido em 2017, cerca de 15% deve ter ficado nos estoques do canal de distribuição, o equivalente a cerca de US$ 1,4 bilhão. No início de 2017, esses estoques somavam US$ 2,4 bilhões.

O presidente da Adama tem números diferentes. A estimativa é que 2017 tenha começado com estoques em US$ 3 bilhões e terminado em US$ 2 bilhões.

A Kleffmann avalia que as vendas da indústria de agroquímicos caíram 3,8% no ano passado, para US$ 9,2 bilhões. Para 2018, prevê que as vendas reajam e cresçam 5%, chegando a US$ 9,6 bilhões.

A Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef) estima uma queda maior em 2017. Segundo a entidade, as vendas recuaram entre 5% e 7%. Conforme a entidade, os estoques no canal de distribuição representavam, no começo de 2017, ao redor de 40% dos US$ 9,6 bilhões vendidos em 2016.

Se no curto prazo o fechamento de fábricas na China leva a aumento de preços, no longo, melhora as condições ambientais no país asiático e pode estimular o desenvolvimento da indústria brasileira.

A Adama planeja investir entre US$ 30 milhões e US$ 50 milhões para ampliar sua produção. Até 2019, a empresa pretende implantar mais duas unidades em seu complexo em Londrina (PR), que já tem três plantas, ao passo que em Taquari (RS) os planos preveem mais duas fábricas até 2020.

A Adama planeja ainda dobrar o número de princípios ativos produzidos no Brasil. "Vínhamos antevendo essa situação na China há algum tempo. Desde 2012 essas leis mais duras já existiam, mas só no ano passado o governo chinês passou a implantá-las".

Segundo Eduardo Leduc, vice-presidente da unidade de proteção de cultivos da Basf para a América Latina, as mudanças na China farão com que a produção em países em que a legislação já é mais adequada fique mais competitiva. "Nos últimos anos houve uma desindustrialização. Não havia vantagem competitiva em se produzir no Brasil", disse. A Basf investiu no país cerca de US$ 100 milhões nos últimos cinco anos e dobrou a capacidade de formulação de fungicidas e inseticidas nos últimos três anos, afirmou.

Fonte: Valor | Por Kauanna Navarro | De São Paulo