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Reserva ambiental é nova área de negócio da Votorantim

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Silvia Costanti / Valor

Canassa, diretor da Reservas Votorantim: desafio de descobrir potenciais negócios interagindo com as comunidades

Dono de uma estrutura bastante diversificada, em que as operações vão de uma instituição financeira à produção de suco de laranja, passando por celulose e alumínio, o grupo Votorantim quer agora se consolidar em outro segmento: o de gestão de ativos ambientais.

Inaugurado oficialmente em 2012, o Legado das Águas é o nome oficial da reserva ambiental mantida pela Votorantim desde 1940, quando a Companhia Brasileira do Alumínio (CBA) adquiriu as terras ao longo do rio Juquiá, no Estado de São Paulo, para a instalação de sete pequenas centrais hidrelétricas.

Quando foi formalizado o Legado, o grupo criou a empresa Reservas Votorantim Ltda com a missão de gerir o ativo e, mais importante, descobrir como fazer para ele andar com as próprias pernas. David Canassa, gerente de sustentabilidade da Votorantim S.A. e hoje também diretor da Reservas Votorantim, junto com sua equipe, fez mais: descobriu várias maneiras de gerar receita com o ativo.

Desde então, o plano de negócios de cinco anos, que vence em 2017, investiu cerca de R$ 4 milhões ao ano para descobrir os potenciais de negócios da região. A expectativa é que no próximo plano, atualmente em elaboração e perto de ser finalizado, já esteja contemplado o "ponto de equilíbrio", ou o momento em que os gastos se pagarão.

"No começo da década, o grupo me encarregou de encontrar uma maneira de o Legado se manter sustentável sem patrocínio algum", explicou o executivo, em entrevista ao Valor. "Baseamos os estudos nesse sentido em três pilares: o reconhecimento formal da área, a relação com o poder público e a interação com as comunidades que lá vivem."

Canassa quer chegar daqui a cinco anos com uma receita anual de R$ 7 milhões e no mínimo com as operações no "zero a zero", sem dar prejuízo. Para isso, vai apostar no arrendamento de terras por exigência ambiental, no ecoturismo e na bioprospecção das espécies locais.

A reserva em si atinge principalmente três municípios – Juquiá, Miracatu e Tapiraí – em 31 mil hectares. Localizada próxima ao Vale do Ribeira, uma região focada na agricultura e piscicultura, com pobreza maior que a média do Estado e desenvolvimento abaixo dos vizinhos, é a maior reserva privada da Mata Atlântica.

De acordo com o executivo, o primeiro potencial de geração de receita, de curtíssimo prazo – e que, inclusive, já está em curso -, era a possibilidade de arrendar parte das terras a empresas com déficit de reserva legal, o que é previsto pelo novo Código Florestal. Da extensão total da reserva, 12 mil hectares já são arrendáveis agora – 400 hectares, inclusive, já estão contratados – e mais 12 mil hectares o serão no futuro.

"É uma oportunidade bastante interessante, mas difícil, porque a companhia tem de mostrar responsabilidade social e ambiental, um compliance que é custoso", afirmou Canassa. "Mas a atividade nos dá expertise necessária até para prestar consultoria nesse sentido, mesmo sem arrendar as terras. É outra fonte possível de receita."

Essa especialização na gestão ambiental faz com que a Reservas Votorantim vislumbre participação relevante no mercado de créditos de carbono, quando ele finalmente se desenvolver. Além disso, também quer trabalhar na manutenção de florestas alheias. Seria uma "solução integrada", do início à gestão.

Em segundo lugar, entrará a receita com o turismo. Durante as conversas com o poder público dos três municípios envolvidos diretamente no Legado, a Reservas Votorantim se esforçou em prestar auxílio nas contas públicas e montar estratégias turísticas para a região – que, na verdade, nunca deslanchou como um destino preferencial no Estado. Uma espécie de "turismo acadêmico" já ocorre na reserva, com as pesquisas, mas uma parte foi transformada em parque, que será aberto oficialmente no mês que vem.

"Já ajudamos a Comunidade Cabocla de Ribeirão da Anta a se associar e se formalizar juridicamente para participar do potencial econômico. Eles já estão recebendo visitantes, fornecendo produtos e alimentação", explicou Canassa. "Nos preparamos durante sete meses para a abertura desse parque."

No longo prazo, o executivo enxerga potencial de grande transformação na empresa. Isso porque os estudos da fauna local levaram a descobertas impressionantes, como espécies que já se acreditavam extintas. Com o mapeamento genético e o investimento em pesquisa, é possível que as espécies possam ser reproduzidas comercialmente.

"Essa bioprospecção é um dos carros-chefe do negócio, ao lado do arrendamento. Em última instância, se pudermos fabricar produtos com elementos dessas faunas, poderíamos aumentar exponencialmente a empresa", estimou, lembrando que a Natura teve origem em uma pesquisa semelhante, por exemplo.

"O próximo passo é conquistar investidores para o turismo de alto padrão internacional e finalizar nosso plano de negócios dos próximos cinco anos. É um desafio grande e tivemos que frear um pouco recentemente por causa da crise, mas estamos bastante confiantes."

Por Renato Rostás | De São Paulo

Fonte: Valor