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Real e ‘Carne Fraca’ fazem lucro da Minerva desabar

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Ana Paula Paiva / Valor

Galletti, presidente da Minerva, afirma que "ciclo da pecuária virou", elevando oferta de boi gordo para abate no país

A apreciação do real e os reflexos da Operação Carne Fraca derrubaram o resultado da Minerva Foods, terceira maior empresa de carne bovina do Brasil, no primeiro trimestre. No período, a empresa registrou lucro líquido de R$ 2,5 milhões, 94,7% abaixo dos R$ 46,3 milhões do primeiro trimestre do ano passado.

"Esses dois fatos tornaram o trimestre extremamente desafiador", admitiu o diretor financeiro da Minerva, Edison Ticle. No primeiro trimestre, o real se valorizou 24,1% sobre o dólar ante o mesmo período de 2016. "Obviamente, isso afetou tanto a receita quanto a rentabilidade das exportações". A Minerva obtém em torno de 60% de suas vendas na exportação.

Nesse cenário, a receita líquida da empresa caiu 8,4% no trimestre, somando R$ 2,141 bilhões. Entre janeiro e março, o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) da Minerva caiu 21,5% na comparação anual, para R$ 197,6 milhões. Com isso, a margem Ebitda caiu 1,6 ponto, de 10,8% para 9,2%.

A Operação Carne Fraca, deflagrada pela Polícia Federal em 17 de março, também atrapalhou a Minerva. Em meio aos diversos embargos temporários às carnes brasileiras – a maior parte deles já revertido -, a companhia segurou estoques porque, no auge da crise, a extensão dos embargos ainda não estava clara, afirmou Ticle.

"Passamos o fim do trimestre com estoque aguardando no porto até ter uma definição mais clara", disse. O risco a ser evitado, explicou, era embarcar um produto que, ao chegar no país de destino, não poderia desembarcar. A estratégia consumiu capital de giro. No terceiro trimestre, a necessidade de capital de giro da Minerva aumentou em R$ 40 milhões. Além do carregamento de estoques, o aumento do uso de capital de giro decorre de outro efeito colateral da Carne Fraca: os pecuaristas só queriam vender boi gordo à vista.

A despeito dos "extremos desafios" do primeiro trimestre, a avaliação é que houve uma reversão quase total dos embargos decorrentes da Carne Fraca ao longo de abril, disse o presidente da Minerva, Fernando Galletti de Queiroz. A expectativa do empresário é que as exportações voltem à plena normalidade em maio e, com isso, haja crescimento dos embarques.

Além disso, ressaltou Galletti, há outro fator positivo. "Está evidente que o ciclo da pecuária virou", disse, referindo-se à maior oferta de boi. A expectativa é de que isso se traduza em preços mais baixos da arroba ao longo de 2017, o que deve significar alívio nos custos. Em geral, o boi gordo representa em torno de 80% dos custos de produção dos frigoríficos.

No mercado externo, também há aumento do preço em dólar da carne bovina exportada pelo Brasil, o que ajuda a atenuar a valorização do real. Galletti disse ainda que, diante do preço mais alto da carne bovina americana e da escassez de boi na Austrália, o Brasil fica mais competitivo na exportação. No front doméstico, a perspectiva também é de recuperação da demanda no segundo semestre. Nesse cenário, a expectativa é de melhora nos resultados da empresa a ponto de reduzir o índice de alavancagem.

No fim de março, a relação entre a dívida líquida e o Ebitda em 12 meses da Minerva estava em 3,8 vezes, acima do índice de 3,4 vezes de dezembro de 2016. Segundo Ticle, o cenário positivo para o restante de 2017 deve fazer com que o índice retorne ao patamar do primeiro trimestre de 2016 – de 2,9 vezes.

Por Luiz Henrique Mendes | De São Paulo

Fonte : Valor