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Área plantada com trigo deverá diminuir no país

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Os produtores que começam neste mês a entrar em campo para semear a próxima safra de trigo encontram em um cenário rarefeito de estímulos para avanços. Saídos de uma colheita recorde na temporada 2015/16 e em meio à alta competitividade do cereal importado, a oferta abundante tem jogado os preços no chão, em um cenário agravado por um consumo ainda combalido.

Na safra passada, o trigo foi plantado em 2,118 milhões de hectares no país. As primeiras estimativas para a área deste ciclo ainda serão divulgadas neste mês, mas analistas avaliam que poderá haver uma redução da extensão principalmente no norte do Paraná, onde o cereal concorre com outras culturas. A região não é desprezível: na safra passada, a colheita no norte paranaense representou 17% da produção nacional.

"No Paraná, deve haver perda de área novamente, com nas últimas duas safras. Na metade norte do Estado, ele compete com o milho safrinha, que está muito mais atrativo", afirmou Élcio Bento, analista de trigo da consultoria Safras&Mercado. Segundo ele, a área total no país deverá diminuir em torno de 5%.

A percepção é compartilhada pelo setor industrial. Superintendente corporativo da Nita Alimentos, Marcos Pereira avalia que a área no norte do Paraná encolherá cerca de 15%. Na última safra, os produtores dessa região cultivaram trigo em 437,4 mil hectares, segundo o Departamento de Economia Rural (Deral), ligado à Secretaria Estadual de Agricultura.

Essa perspectiva, porém, pode ser alterada pela dinâmica do cultivo de milho safrinha, cuja semeadura está atrasada no Estado, ressaltou Edmar Gervasio, técnico do Deral. "Quem não plantar milho a tempo acaba plantando trigo ou deixa a terra com outra cultura".

No Rio Grande do Sul, segundo principal Estado produtor, a área não deve sofrer variações expressivas, nem tanto por condições de mercado, mas pela falta de opções, na avaliação do analista da Safras&Mercado. "Lá não há outra opção de cultura de inverno com a mesma dimensão. Outras, como cevada e centeio, são pequenas".

Se os gaúchos resolverem repetir o plantio da última safra – o que já seria uma novidade, dado que a extensão cultivada com trigo no Estado também cai há dois anos -, a área semeada com trigo ficará em 776,9 mil hectares, considerando dados da Conab. A autarquia deve apresentar sua primeira estimativa para a área a ser plantada com trigo no país no próximo relatório.

Os preços pouco atrativos para o avanço do cultivo do trigo são pressionados neste momento pela enxurrada de cereal importado, favorecida pela boa produção nos países produtores e pelo dólar menos valorizado. Segundo levantamento da Safras&Mercado, o trigo argentino e o uruguaio chegam aos portos 5% mais baratos que o cereal brasileiro. Pelos valores atuais do trigo que sai dos países vizinhos, o dólar teria que ir a R$ 3,30 para que a oferta interna volte a ser mais vantajosa.

No período de 12 meses encerrado em janeiro deste ano, o Brasil importou 35,7% mais trigo do que no mesmo período anterior, conforme dados do Agrostat, do Ministério da Agricultura. O pico foi em setembro do ano passado, quando foram importadas 881 mil toneladas, mais que o dobro na comparação anual.

Com essa oferta chegando aos portos, os preços do produto nacional estão abaixo do preço mínimo estabelecido pelo governo, de R$ 38,65 a saca, há meses. No Paraná, desde o início do ano, a saca tem oscilado entre R$ 30 e R$ 35, segundo dados do Deral. No Rio Grande do Sul, o preço que a cooperativa Cotrijuí paga aos produtores está em R$ 28,70 a saca desde novembro.

A Conab já realizou oito leilões para auxiliar no escoamento do produto, mas os preços ainda não reagiram. Para Bento, as cotações devem começar a subir apenas em abril, e não voltarão aos patamares da mesma época da safra passada. Ele acredita que o valor do trigo no Paraná possa subir até R$ 650 a tonelada nesta entressafra, enquanto no Rio Grande do Sul a perspectiva é de que chegue a R$ 600 a tonelada.

Em abril de 2016, a tonelada do trigo no Paraná foi negociada em média a R$ 767,61, e no segundo semestre chegou a superar os R$ 900, segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP. No Rio Grande do Sul, o preço médio ficou em R$ 674,28 a tonelada naquele mês e foi a R$ 829,27 a tonelada em junho.

Por Camila Souza Ramos | De São Paulo

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