Área de algodão deverá ser a menor em 13 anos

Para o presidente da Abrapa, João Carlos Jacobsen, há uma falsa impressão de que o dólar está elevando a rentabilidade
A área plantada de algodão no Brasil deverá cair neste ciclo 2015/16 ao menor nível em 13 anos. Os produtores estão mais alavancados, com o caixa apertado, e o acesso ao crédito está mais difícil. Em relação à safra 2014/15, essa combinação poderá reduzir em 20% o cultivo da pluma, cujos custos são elevados – cerca de três vezes maiores que o da soja.

Conforme estimativa da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), deverão ser semeados na nova temporada 800 mil hectares com a pluma, ante os 989 mil de 2014/15. O presidente da entidade, João Carlos Jacobsen, explica que há uma falsa impressão de que o dólar alto está elevando a rentabilidade. Mas os custos também são dolarizados, lembra ele. "A margem está muito pequena e o produtor não está disposto a correr riscos", avaliou.

Além de um custo de R$ 8 mil por hectare, ante os R$ 2,5 mil da soja, o algodão demanda quase um ano inteiro da operação na fazenda, lembra Jacobsen, somando-se plantio, tratos culturais, colheita e beneficiamento – está última etapa composta por limpeza, descaroçamento, análise da fibra e enfardamento da pluma. "A soja é colhida em 120 dias. Para valer a pena o risco, a pluma tem que oferecer uma margem duas ou três vezes maior do que a da oleaginosa. E, atualmente, essa margem está menor", afirma o dirigente.

Nas contas de Jacobsen, o cultivo de soja deverá render margem líquida de 10% a 15% em 2015/16. E o percentual poderá atingir 30%, conforme o dirigente, caso o plantio seja em uma área antes ocupada por algodão. Isso porque a terra que abrigou por muitos anos o algodão costuma formar uma "poupança" de fertilizantes no solo – que, quando passa a receber a soja, praticamente dispensa a aplicação de fertilizantes algumas vezes por mais de uma safra, reduzindo os custos de produção da oleaginosa em até 30%.

Apesar desse cenário, o produtor Walter Horita afirma que vai manter sua área de produção com a pluma no oeste da em 38 mil hectares em 2015/16, e espera uma rentabilidade satisfatória. "A margem da soja é de 40%, mas por hectare, a sobra líquida é de R$ 1.250. No caso do algodão, a margem é de 25%, mas obtenho uma rentabilidade líquida de R$ 2,5 mil por hectare".

Nessa conta, Horita não contabiliza o custo de arrendamento, pois planta em terras próprias. "Não considero o custo de oportunidade. Para mim, o que vale é o que ganho por hectare", explica o produtor, cuja operação total na Bahia envolve uma área de 98 mil hectares.

Apesar da visão otimista com algodão, Horita reconhece que, para produtores que já estão com dificuldade no fluxo de caixa e mais alavancados, essa margem da pluma é apertada e oferece riscos financeiros em caso de intempéries.

Muitos produtores já estão com dificuldades para continuar plantando algodão, observa o presidente da Abrapa. Jacobsen estima que em torno de 10% dos cerca de mil produtores da pluma no país deverão abandonar a cultura em 2015/16.

No caso de Mato Grosso, Estado que concentra a maior produção nacional da pluma, também pesa contra o cultivo de algodão, segundo Jacobsen, o aumento na incidência do bicudo, uma praga que exige muitas aplicações de defensivos, e pode elevar ainda mais o custo de produção.

No front financeiro, atrapalhou ainda mais o acesso ao crédito o fim da possibilidade de os bancos emprestarem a seus clientes de grande porte recursos a juros subsidiados. Esse montante, normalmente na casa de R$ 6 bilhões, foi retirado do Plano Safra 2015/16.

Também não vingou a tentativa do segmento de conseguir do governo federal a flexibilização das regras para que produtores pudessem captar recursos no exterior. Entre as propostas em análise desde o começo do ano estava a mudança das regras da CPR (Cédula de Produto Rural) financeira para incluir a possibilidade de o título ser indexado ao dólar, e não somente ao CDI, como é atualmente.

Além disso, havia a expectativa de que fosse mais rápida a desburocratização do ACC (Adiantamento de Contrato de Câmbio) para o produtor rural, de forma que ele pudesse captar recursos diretamente por meio dessa linha, mesmo que não seja ele o exportador direto – mas que o fizesse por meio de tradings.

Por Fabiana Batista | De São Paulo

Fonte : Valor