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"Quem não tiver qualidade na produção de leite ficará para trás", diz analista do Rabobank

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Para colombiano Andrés Padilla, mais do que reduzir as barreiras sanitárias, Brasil deve desenvolver melhores acordos comerciais

"Quem não tiver qualidade na produção de leite ficará para trás", diz analista do Rabobank Guilherme Dias/Divulgação

Analista sênior do Rabobank, Padilla prevê uma recuperação nos preços do leite somente em meados de 2016Foto: Guilherme Dias / Divulgação

Ser mais eficiente, garantir máxima qualidade e planejar o avanço da produção de leite para abrir novos mercados são o tripé defendido pelo analista sênior do Rabobank, Andrés Padilla, para o setor crescer com segurança, equilíbrio e rentabilidade.

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Palestrante do 13º Congresso Internacional do Leite, realizado na semana passada em Porto Alegre, o colombiano destacou, em entrevista ao Campo e Lavoura, a tendência de expansão dos programas que remuneram o produtor por qualidade, previu uma recuperação nos preços do leite somente em meados de 2016 e apontou a profissionalização como um dos maiores desafios para o Brasil conquistar espaço no mercado internacional.

Veja a seguir, em tópicos, as principais considerações do analista:

O efeito das fraudes

É muito importante ter debates o tempo todo, tanto quando o mercado está em ponto alto quanto nos momentos em que as coisas estão complicadas. A descoberta de irregularidades é relevante, mas acredito que não é um problema exclusivo do Sul. Aqui, talvez, tenha um pouco mais de fiscalização e controle, o que faz os problemas ficarem mais evidentes.

Programas de qualidade

O ingresso de algumas empresas internacionais no Brasil, nos últimos anos, tem impulsionado a exigência por cada vez mais padrão e qualidade. Os supermercados vêm fazendo um trabalho interessante também, assim como as marcas. Quem não tiver qualidade ficará para trás. E isso se estende a cooperativas e indústrias de laticínio, pois quem tem matéria-prima de qualidade entregará um produto melhor. Ter um processo industrial e produtivo mais eficiente fará com que o consumidor valorize ainda mais o produto. O consumidor está muito preocupado com qualidade. Logo, primar por ela é vital para o setor avançar.

Hora certa de investir

O produtor tem de ter muito cuidado. Sempre precisa olhar qual vai ser o custo de produção antes de tomar qualquer decisão, pois não adianta investir muito se isso não garantir um produto de maior qualidade e que o permita buscar um preço melhor. E tem outro fator: se você tem um produto de melhor qualidade, tende a gastar menos no processo produtivo. Logo, investir bem e com inteligência faz com que o produtor, no futuro, recupere o que aplicou.

Oportunidade na crise

Sou muito otimista quanto ao cenário internacional de leite em médio e longo prazo. Os mercados emergentes precisam cada vez mais de uma alimentação melhor, e o leite é essencial, pois fornece valor nutricional elevado. Além disso, há muitos países na África e na Ásia que estão aumentando o consumo. E, em longo prazo, são poucos os que conseguirão aumentar bastante a sua produção. A Índia, por exemplo, um dos maiores mercados de leite e que é muito fechado, no médio prazo, terá de abrir espaço para importações. Haverá uma grande demanda potencial, sem dúvida.

Barreiras sanitárias

A questão sanitária é importante para o Brasil conseguir acessar mercados no Exterior, mas também é importante desenvolver melhores acordos comerciais. Nos últimos anos, o país tem se limitado a negociar só no Mercosul. Seria interessante fazer acordos comerciais que permitam colocar produtos com menores impostos no mercado internacional, o que faz diferença em competitividade.


(Foto Guilherme Dias, Divulgação)

Queda nos preços

É um momento bastante desafiador. Estamos projetando uma recuperação de preço só em meados de 2016. Então, serão de nove a 12 meses de valores baixos. Mas a gente sabe que o leite, como commodity, tem seus ciclos e, na medida em que a demanda se recuperar um pouco, especialmente na China e na Rússia, e a produção cair em resposta aos valores baixos, o mercado tende a encontrar de novo o equilíbrio, com preços voltando a patamares maiores.

Instabilidade no mercado

A China, que estava importando volumes muito elevados, reduziu bastante as compras por ter recuperado a produção doméstica. Logo, começou a importar menos. Nos últimos nove meses, a Rússia iniciou embargo a produtos lácteos da União Europeia, por uma questão política, e isso obrigou a Europa a colocar no mercado três bilhões de litros a mais. Logo, houve muita oferta, e a demanda, que vinha em ritmo elevado, perdeu fôlego. É normal que, em situação como esta, o preço diminua, mas não se esperava uma queda tão acentuada. Estamos em um ciclo de baixa, mas esperamos que pelo menos a demanda da China esteja mais estável no segundo semestre.

Real desvalorizado

A questão cambial ajuda nas exportações, mas, infelizmente, temos preços baixos. Então, o que você ganha com desvalorização do real perde nos preços internacionais. Isso mostra que não se pode ficar refém do câmbio, mas sim buscar ser mais eficiente. Afinal, se o custo de produção não está no mesmo patamar de grandes exportadores, fica difícil ser competitivo.

Força política

É importante que o setor esteja junto, forte e bem organizado para a abertura dos mercados para exportação. Creio que tem sido feito um trabalho interessante. Mas é importante que se trabalhe para tornar o Brasil capaz de colocar seus produtos em outros mercados com maior liberdade.

Desafios no radar

O principal é continuar com a profissionalização. Deve seguir caminho semelhante ao que aconteceu em outros segmentos do agronegócio brasileiro. Aos poucos, a produção tende a ser mais eficiente e capaz de se equiparar aos mercados internacionais. Se você analisa outros setores, como o de grãos, vê que o Brasil é competitivo. Agora, tem de seguir a mesma trajetória no leite. E o Rio Grande do Sul tem papel muito importante na produção, cuja expansão tende a se acentuar nos próximos anos.

Peso dos impostos

É um tema que não afeta só o leite, mas vários setores produtivos no Brasil. É preciso que as regras do jogo sejam bastante claras, pois só assim é possível acessar novos mercados.

Mais planejamento

O mercado brasileiro tem muito espaço para crescer. Mas, do jeito que está aumentando a produção, o Brasil tem de pensar mais no mercado internacional, pois é uma grande oportunidade. Para isso, fazer um planejamento de cinco a 10 anos é fundamental. Se esperar muito, pode ser tarde demais.

Por: Leandro Becker

Fonte : Zero Hora