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Quebra de safra gera disparada dos preços da castanha-do-pará

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Silvia Costanti/Valor

Ciclo de produção da castanheira é longo: problema atual reflete estiagem de 2016

A falta de chuvas sem precedentes que assolou a região amazônica no início de 2016 impactou fortemente um mercado pouco acompanhado por analistas agrícolas, mas monitorado por uma parcela crescente de consumidores brasileiros, europeus e americanos: a oferta de castanha-do-pará. A produção da amêndoa registrou nesta safra uma quebra estimada de 70%, a maior que já se viu, o que tem provocado aumento expressivo nos preços e, em muitos casos, a necessidade de substituição por produtos similares mais baratos.

Nativa da Amazônia, a castanha-do-pará é recolhida manualmente do chão da floresta no Brasil, na Bolívia e Peru por extrativistas que fazem longas viagens mata adentro e, tradicionalmente, voltam com baldes carregados para casa. Mas entre janeiro e abril deste ano, época da colheita, retornaram à cidade com um terço do volume coletado em anos anteriores.

"Em toda a minha experiência, nunca vi algo como este ano", diz Manoel Monteiro, castanheiro e superintendente da Cooperacre, a maior cooperativa e beneficiadora de castanhas do mundo, com sede em Rio Branco. Com cerca de 2 mil extrativistas, a cooperativa não conseguiu chegar a 200 mil baldes (de 10 a 12 quilos) de castanhas, frente aos 600 mil baldes de antes.

O desequilíbrio entre oferta menor e forte demanda provocou alta brusca dos preços e colocou em xeque contratos de exportação.

Na Europa, um dos principais mercados, a amêndoa já acumula valorização de 61% desde fevereiro, e é negociada a US$ 14,5 mil a tonelada, segundo a empresa de informação agrícola Mintec. Para o extrativista, o balde passou dos R$ 50 de 2016 para R$ 100 neste ano.

Com uma produção estagnada no Brasil – ela gira em torno de 40 mil toneladas há alguns anos, com tendência de queda -, os castanhais foram castigados no ano passado por um combinação de baixa produtividade (a cultura é de ciclo bianual) e a falta de chuvas potencializada pelo El Niño.

Getty Images

Secagem de castanha no Acre: em condições normais, produção está estagnada

Segundo Lúcia Wadt, engenheira florestal e pesquisadora da Embrapa Rondônia, o período de chuvas é crucial para as castanheiras porque coincide com a época de sua floração. Sem água, o desenvolvimento do fruto é prejudicado. Ele fica pequeno, afetando o volume colhido, ou é abortado pela árvore.

O impacto nos preços está sendo sentido apenas agora, diz ela, porque a castanheira tem um longo ciclo de produção: após a floração em janeiro de 2016, as árvores passaram o ano inteiro desenvolvendo suas castanhas. "Elas só são colhidas 12 meses depois da floração. O que estamos vendo no mercado agora é resultado da falta de chuvas de mais de um ano atrás".

Segundo Lúcia, é difícil saber se a forte escassez foi um evento atípico e pontual ou, como sugerem alguns ambientalistas, um novo padrão diante do sério processo de mudança climática em curso.

O fenômeno climático afetou como um todo os países produtores de castanha-do-pará. Além do preço mais alto, quem exporta diz estar com problemas para honrar contratos. "Não tem mesmo", afirma Fernando Reis, gerente comercial da Amazon Brazil Nuts, empresa que beneficia castanhas no Pará e Acre para os mercados interno e externo. "A escassez de chuvas atrasou a colheita e quando choveu, afetou os ouriços, que acabaram apodrecendo", diz. Segundo Reis, diante da quebra atual a companhia optou por não exportar este ano.

Segundo dados do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (Mdic), em 2016, as exportações de castanha-do-pará somaram 8.498 toneladas, bem abaixo das 21.481 toneladas do ano anterior. Os dados são considerados conservadores pelo mercado já que parte da venda para o exterior não é oficial.

Diferentemente de outras culturas plantadas, como o açaí, a castanha-do-pará ainda é um fruto colhido a partir do extrativismo de árvores que estão entre as mais gigantescas da Amazônia, mas são antigas e de baixa produtividade.

Seu principal disseminador de sementes é a cotia, um mamífero com mandíbulas e dentes fortes o suficiente para quebrar o ouriço que envolve o fruto. O animal recolhe as castanhas que pode, come as que consegue e enterra o restante em buracos profundos que cava para consumir depois. "Mas como ele anda muito, acaba não achando mais onde escondeu", explica Monteiro, da Cooperacre.

Desde a semeadura, a castanheira leva em média 50 anos para começar a frutificar. Nesse ritmo, a floresta nativa não consegue acompanhar o ritmo da demanda.

Conforme a Embrapa, alguns experimentos-pilotos com plantios de castanheiras já são feitos no Acre, em Rondônia e Mato Grosso. A intenção é acelerar a produção em sistemas agroflorestais, mas os resultados ainda estão distantes.

A demanda crescente do consumidor, que vê na castanha um aliada na prevenção de doenças, não acompanha a capacidade da floresta de gerar tantos frutos. Além da indústria alimentícia, a castanha-do-pará também é matéria-prima para a produção de cosméticos.

A forte alta da castanha-do-pará levou a empresária Julice Vaz, proprietária da Julice Boulangère, que fabrica pães finos na capital paulista, a deixar de produzir pães e outros itens que contenham castanha na receita. Segundo ela, em janeiro deste ano a empresa comprava, no atacado, castanha quebrada por R$ 33,40 o quilo. Em maio, o menor valor que encontrou foi de R$ 73,50 por quilo.

"Esse aumento foi uma tragédia, pois sempre apostei nesse produto brasileiro em detrimento das outras oleaginosas importadas. Primeiro porque sempre foram mais caras, segundo para valorizar o que é nosso", afirma ela. A produção de itens com castanha está sendo reduzida gradualmente na Julice. A empresária diz que agora não tem muitas alternativas para substituir a castanha, uma vez que as nozes custam em torno de R$ 29,90 o quilo.

Nos supermercados, um item foi favorecido pela alta da castanha: as vendas de amendoim saltaram nos últimos meses, segundo grandes redes varejistas que preferem não se identificar. (Colaborou Alda do Amaral Rocha)

Por Bettina Barros | De São Paulo

Fonte : Valor