Pátria vai captar US$ 300 milhões para investir no mercado de terras

Antonio Wever: primeiro fundo, de R$ 150 milhões, poderá ser lançado em março
Depois de alavancar os ativos agrícolas a 20% de sua carteira total de investimentos, o Pátria Investimentos dará início em 2016 a uma nova e ambiciosa frente de negócio: a compra de terras destinadas à produção de grãos no país. A gestora pretende captar US$ 300 milhões nos próximos dois anos para investir em fazendas já produtivas, aproveitando o atual cenário de preços da terra em alguns casos já em declínio diante das dificuldades financeiras em que se encontram alguns produtores.

O braço agrícola começou a ser estudado há quase dois anos, na esteira da demanda de investidores por uma maior exposição da gestora à parte central do agronegócio brasileiro: o plantio de soja, milho e algodão. "Estamos falando de um investidor sofisticado, que enxerga além da crise e vê o potencial do Brasil no longo prazo, sobretudo na agricultura", disse ao Valor Antonio Wever, sócio do Pátria para Agribusiness.

O time o do "real estate caipira", como brincam internamente sobre a nova divisão, já mapeou 2 milhões de hectares de grãos no Maranhão, Piauí, Tocantins, oeste da Bahia, sudeste do Pará e também em Mato Grosso. O modelo de negócio prevê a compra de fazendas produtivas de médio porte – com maior liquidez – e também áreas de pastagens degradadas aptas à futura conversão para grãos. De acordo com o executivo, são áreas de três mil a sete mil hectares.

Com tíquete mínimo de R$ 2,5 milhões por investidor brasileiro (no caso de estrangeiros, os volumes são bastante superiores), a ideia é lançar já em março o primeiro fundo, de R$ 150 milhões.

Wever não informa quando a primeira compra será realizada, mas especula que poderá acontecer no primeiro semestre de 2016. Segundo ele, não é possível fazer um paralelo com a realidade dos imóveis urbanos, para ele mais reativos ao quadro econômico. "A desaceleração elevou a cautela nos negócios, mas o imóvel rural tem mais liquidez e o agronegócio está indo bem, ao contrário do resto da economia", afirmou Wever.

Diferentemente de outras empresas de compra e venda de terras agrícolas, o Pátria não fará originação. Será exclusivamente operador. Ou seja, o fundo adquire uma propriedade, ou parte dela, e arrenda para terceiros. "Nada impede, inclusive, de arrendar a terra à própria pessoa que nos vendeu".

Nas últimas semanas, o executivo participou de "road shows" com fundos de pensão, endowments e family offices nos Estados Unidos e na Europa. Wever diz ter conversado pessoalmente com 50 investidores no exterior, dos quais 20 são considerados candidatos potenciais a apostar em terras no país.

Segundo ele, o momento está oportuno para negócios. A conjuntura no campo – escassez de crédito, baixos preços das commodities e custos de produção mais altos – tornou o mercado comprador atrativo no segmento de terras. Já não são raros os descontos de 20%, podendo chegar a 40%.

"São pessoas que estão querendo vender uma de suas propriedades, ou parte de uma propriedade, como forma de se capitalizar para enfrentar essa situação", disse.

Ex-sócio para fusões e aquisições do Pátria, o executivo vê o interesse em ativos imobiliários rurais por parte também de investidores de outros fundos da gestora. "Eles já estão em logística e empresas do agronegócio [onde o Pátria está posicionado] e, por isso, demandavam exposição em terras".

Desde 2011, o Pátria vem montando seu portfólio no setor agrícola, seja em fundos de infraestrutura ou de private equity. A gestora detém o controle acionário da Agrichem, de fertilizantes, da AC Café (dona da marca Café do Centro) e da Frooty, empresa de açaí.

Em logística, aliou-se ao grupo Promom em um fundo de infraestrutura que tirou do papel a Hidrovias do Brasil. Aportou R$ 1,5 bilhão na primeira fase de um investimento que abrange a construção de dois terminais para o escoamento de grãos no Pará e uma frota de barcaças e empurradores. A Hidrovias atua ainda no corredor Paraná-Paraguai, no Uruguai, Paraguai e entrará na Argentina.

Em janeiro, o mesmo fundo vendeu à japonesa Toyota a trading NovaAgri, por valor não divulgado. A empresa possui oito armazéns de grãos, dois terminais de transbordo e um terminal de grãos no porto de Itaqui, no Maranhão.

A favor da gestora está a "grande sinergia" entre as divisões de negócios do Pátria, segundo Wever. "Uma empresa de fertilizantes com mais de 50 vendedores interagindo com fazendeiros justamente na região que a gente está focando é fonte de informação extremamente importante. É chegar antes".

Por Bettina Barros | De São Paulo

Fonte : Valor