Provável aquisição da Syngenta pela ChemChina preocupa os americanos

"Barreiras precisam ser baseadas na ciência e na regras", afirma Tom Vilsack
A autoridade agrícola de maior patente dos Estados Unidos manifestou, nesta semana, seu temor com a proposta de compra de US$ 44 bilhões apresentada pelos chineses pela Syngenta, multinacional suíça de agroquímicos e sementes. O secretário americano da Agricultura Tom Vilsack se mostrou particularmente preocupado com o impacto que o negócio poderá ter sobre os trâmites de Pequim para aprovar os organismos geneticamente modificados (OGMs) produzidos nos EUA. Mas, por tabela, expôs inclusive incertezas sobre a segurança dos alimentos no mundo.

A oferta pela Syngenta, anunciada no início deste mês pela estatal ChemChina, poderá resultar no maior investimento de uma companhia chinesa no exterior. É encarada como uma tacada estratégica para reforçar a segurança alimentar do país asiático e melhorar seu acesso a tecnologias agrícolas de ponta. Mas, pelo peso da Syngenta no mercado americanos de sementes e defensivos, a proposta também está sendo examinada a fundo por Washington.

Até agora, o presidente Barack Obama e sua administração não se manifestaram oficialmente sobre a transação. Mas em uma conferência telefônica com jornalistas na terça-feira, Vilsack admitiu estar preocupado. "Continuo extremamente preocupado com a maneira como a biotecnologia e a inovação estão sendo tratadas e obstruídas por um sistema na China que, muitas vezes, não se baseia na ciência e parece estar mais relacionado à política", afirmou ele.

A Syngenta é uma das maiores produtoras globais de sementes transgênicas de culturas como milho, soja e beterraba. No ano passado, rejeitou uma oferta feita pela americana Monsanto, talvez sua maior concorrente nesses mercados. Mas o fato é que Syngenta, Monsanto e outras companhias que investem em sementes geneticamente modificadas enfrentaram barreiras nos últimos anos para obter a aprovação do governo da China para emplacar o plantio de seus produtos no país. Problemas também costumam acontecer para a obtenção do "sinal verde" chinês para a importação de cargas com grãos produzidos a partir de sementes transgênicas.

As autoridades americanas, inclusive o próprio presidente Obama, já demonstraram desagrado em relação a essa postura de Pequim, considerada injusta e pouco transparente. Em Washington, a suspeita é que a resistência seja motivada pelo desejo da China de proteger sua indústria local de biotecnologia, ainda embrionária. É nesse contexto que tem sido analisada a recente aprovação de apenas três de 12 novas variedades transgênicas submetidas recentemente à aprovação de Pequim.

Como a China é o maior país importador de soja e poderá ganhar relevância nas compras de milho no exterior, os americanos afirmam que seus atrasos regulatórios podem ser um obstáculo à inovação e a novas pesquisas com sementes transgênicas. A frustração americana com o processo de aprovação chinês aumentou com prisões nos Estados Unidos, nos últimos anos, de vários cidadãos chineses acusados de espionagem comercial por tentativas de roubo de sementes transgênicas.

Também há nos EUA quem tema que, se a compra da Syngenta for aprovada, as sementes transgênicas e outros produtos da companhia suíça possam receber um tratamento preferencial por parte das autoridades chinesas, deixando os concorrentes americanos em desvantagem.

Em razão do que considerou um efeito negativo provocado pelo processo regulador chinês sobre a inovação, Tom Vilsack caracterizou o problema como algo que vai além das relações entre EUA e China. E destacou a necessidade de que a produtividade agrícola aumente para "atender à demanda crescente por alimentos existente hoje no mundo".

"Os EUA precisam ser capazes de fazer suas inovações chegarem ao mercado após estudos e revisões apropriadas, sem barreiras desnecessárias e desmedidas resultantes da política", disse. "Elas precisam ser baseadas na ciência e nas regras. Temos sido consistentes nessa abordagem."

A Syngenta já informou que vai submeter voluntariamente o acordo com a ChemChina para análise da Comissão de Investimentos Externos dos Estados Unidos (CFIUS), que é formada por várias agências e examina as implicações à segurança nacional de propostas estrangeiras de aquisição de ativos americanos.

Especialistas no processo afirmam não ver preocupações óbvias à segurança nacional em razão do negócio com a Syngenta, mas deixam em aberto a possibilidade de as operações da empresa nos mercados de sementes e agroquímicos dos EUA representarem um problema em potencial.

As autoridades do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) não estão representadas na CFIUS, e a comissão nunca impediu antes um negócio no setor de alimentos com base na segurança alimentar. Mas o negócio entre ChemChina e Syngenta ocorre em um momento de preocupações políticas crescentes com os investimentos chineses em geral e com o colapso de uma série de negócios recentes por conta de preocupações da CFIUS.

Na terça-feira, por exemplo, um grupo estatal chinês de tecnologia desistiu de um plano de US$ 3,8 bilhões para se tornar o maior investidor da Western Digital, da área de armazenagem de dados, depois que a CFIUS decidiu analisar mais a fundo o investimento. (Tradução de Mario Zamarian)

Por Shawn Donnan | Financial Times, de Washington

Fonte : Valor