Projeções meteorológicas ajudam produtor a planejar melhor a safra

Com prognósticos precisos e técnicas de manejo apuradas, agricultor consegue se proteger contra perdas

Projeções meteorológicas ajudam produtor a planejar melhor a safra  Lidiane Mallmann/Especial

Egon e Martin Bünecker trabalham sempre de olho nas previsões do tempo Foto: Lidiane Mallmann / Especial

Joana Colussi e Vagner Benites

joana.colussi@zerohora.com.br | vagner.benites@zerohora.com.br

Situado em uma região de influência direta de fenômenos naturais que fazem variar o volume de chuva a cada ano, o Rio Grande do Sul tem no fator climático um protagonista com atuação ainda mais  forte na produção agrícola. Tão determinante como o solo e as sementes, o clima deixa de ser apenas um fator de lamento para se tornar aliado: com prognósticos meteorológicos precisos e técnicas de manejo apuradas, se consegue planejar as safras para se proteger ou reduzir perdas.
— O nosso regime de chuva é muito variável. Estamos em uma região de alto risco, especialmente às culturas de verão, como milho e soja — aponta Homero Bergamaschi, da faculdade de Agronomia da Universidade Federal do Estado (UFRGS).
Enquanto agricultores do Centro-Oeste costumam conviver com estações definidas de chuva e seca, com precipitações mensais superiores a 250 milímetros no verão, os produtores gaúchos aguardam com ansiedade os prognósticos meteorológicos a cada nova safra. Nos meses de calor, o volume médio mensal de chuva no Estado varia de 130 a 150 milímetros.
— Prever ao certo o que vai ocorrer é impossível. Mas as projeções indicam tendências, que devem ser consideradas para adoção de uma série de medidas de proteção da produção — afirma Bergamaschi.
Em 2013, sem o risco de El Niño e do La Niña, a tendência é de neutralidade nos próximos meses, com períodos de chuva e temperaturas próximas da média histórica. A previsão é um alívio para os produtores: as duas últimas grandes estiagens da década foram causadas em períodos de fenômenos climáticos — El Niño, em 2005, e La Niña, em 2012.
Previsões do tempo são tão importantes como insumos
O prognóstico favorável, no entanto, não é sinônimo de safra cheia. O meteorologista Glauco Freitas, da Fundação Estadual de Pesquisa Agropecuária (Fepagro), explica que a previsão do tempo é fundamental para ajudar a decidir sobre aumento ou redução de área plantada, a definir a melhor época do plantio, além de estimar a probabilidade dos reservatórias de água esvaziarem ou encherem na estação.
— Cada cultura tem necessidades diferentes, e isso deve ser respeitado considerando especialmente a variação climática — aponta Freitas.
Com diagnósticos que vão muito além da simples incidência de chuva, mas também regularidade e distribuição das precipitações, as previsões devem ser incluídas no planejamento das safras — com o mesmo grau de importância das máquinas ou da semente.
— A meteorologia pode proteger o produtor tanto em situações adversas de clima, precavendo-se de uma eventual seca, quanto em condições favoráveis, que costumam resultar em supersafras — explica Freitas.
Plantio adiado para escapar das geadas

Pai e filho, Martin, 53 anos e Egon Bünecker, 24 anos, planejam as safras de inverno e verão com as previsões meteorológicas debaixo do braço. Com 130 hectares de lavoura em Cruzeiro do Sul, no Vale do Taquari, os dois agricultores ficam de olho nas projeções para definir a melhor época de semeadura e de colheita — assim como para escolher cultivares de ciclos mais curtos ou mais longos.
— Quando há previsão de estiagem, investimos em variedades de soja e milho de ciclos diferentes, para fugir do período crítico da seca — diz Egon, acrescentando que, com esses cuidados, aumentaram 15% a produtividade da lavoura de trigo nos últimos anos.
Nas lavouras de inverno, o cuidado não é com a seca, mas com o frio e o excesso de chuva. Neste ano, eles retardaram o plantio de trigo para proteger as plantas de geadas.
— Dessa forma, também controlamos o período da colheita em outubro, que é normalmente um período de chuva — explica Martin.
Para acompanhar esse calendário basedo no clima e suas mudanças, a família também investe em maquinários e equipamentos eficientes — para plantar e colher no ritmo necessário.
Mudanças a caminho

Com estimativa de provocar perdas nas safras de grãos de R$ 7,4 bilhões até 2020, conforme estudo da Embrapa, o aumento das temperaturas em razão do aquecimento global pode causar mudanças significativas em culturas importantes no Estado. Os principais efeitos poderão ser sentidos na produção de frutas como maçã e uva, cultivadas em áreas de altitude elevada e que precisam maior tempo de exposição ao frio.
Impactos são previstos também no trigo, pela necessidade de temperaturas amenas para desenvolvimento, e na soja, por conta do maior risco de falta de água. Conforme o professor Hilton Silveira Pinto, do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura da Universidade de Campinas (Cepagri/Unicamp), um aumento na temperatura média registrada no Estado exigiria maior necessidade de água, devido à evaporação provocada pelo calor:
— Hoje, o Estado tem uma das menores produtividades do país na soja em função da variação climática que já ocorre.
Segundo o pesquisador da Embrapa Eduardo Assad, os agricultores familiares serão mais afetados pelas mudanças do clima, como pela alteração do ciclo da chuva e o aumento as temperaturas. Ele avalia que, com o aumento das temperaturas, haverá mudança na geografia da produção no Brasil, com o deslocamento de plantações para o Sul, como café e frutas, onde o clima é mais ameno. No caso do agricultor familiar, que está fixado em local determinado, o prejuízo é mais intenso,  também por ser, em geral, sua única fonte de subsistência.
Para diminuir o risco nas lavouras

Zoneamento agroclimático
– Siga o zoneamento agroclimático e observe a indicação de cultivares, solos e épocas de plantio/semeadura no site do Ministério da Agricultura. Sem isso, não há garantia do seguro agrícola e financiamento das lavouras.

Assistência técnica
– Consulte a assistência técnica para o manejo, implantação e colheita.

Escalonamento de cultivares
– Escalone a época de semeadura/plantio e utilize cultivares de ciclos diferentes (tardio, médio e precoce).

Rotação de culturas
– Observar práticas de rotação de culturas dentro do sistema de produção. Evite repetir a mesma cultura por mais de dois anos na mesma área. Intercale lavouras de milho com soja, por exemplo, para incorporar mais palha e proteger contra erosão e compactação do solo.

Irrigação e uso da água
– Racionalize o uso de água e irrigue quando necessário. A irrigação em plantios como milho e feijão aumenta consideravelmente o potencial de melhorar a produção.

Plantio direto
– Práticas de manejo sustentáveis do solo ajudam a reter a umidade, permitem um aprofundamento maior das raízes, melhor infiltração da água no solo e menor erosão.

Fonte: Zero Hora