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Produtores do Nordeste tentam barrar camarão do Equador

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Alexandre Gondim/JC Imagem

Produção de camarão no Nordeste: preço e doenças preocupam brasileiros

Para tentar impedir que carregamentos de camarão vindos do Equador acessem o mercado brasileiro, produtores do Nordeste intensificaram a pressão e mobilizaram as bancadas de seus Estados no Congresso. Se não resolver e os desembarques se concretizarem, ameaçam ir à Justiça.

A pedido da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), as importações de camarão equatoriano "sem cabeça, descascado e congelado" foram liberadas pelo Ministério da Agricultura em novembro.

Os restaurantes se queixam de que a explosão da doença "mancha branca", que não causa riscos à saúde humana mas é mortal para os camarões, derrubou a oferta nacional e impulsionou aumentos dos preços do crustáceo da ordem de 50% no varejo e de 20% em bares e restaurantes.

Em consequência da doença, a produção brasileira recuou 21% em 2016, para 60 mil toneladas. "Os estoques dos grandes restaurantes acabaram em fevereiro. Muitos supermercados vão importar diretamente do Equador", afirmou o presidente da Abrasel, Paulo Solmucci Junior, ao Valor.

Até agora, entretanto, nenhuma carga do país vizinho está apta a ingressar nos portos brasileiros, pois o país ainda precisa habilitar as empresas exportadoras do Equador e aprovar a rotulagem dos produtos que serão enviados, o que ainda está sendo feito.

A Associação Brasileira dos Criadores de Camarão (ABCC) alega que no Equador, maior produtor do crustáceo na América Latina, há dez tipos de doenças registradas na Organização Mundial de Saúde Animal (OIE), das quais sete nunca foram identificadas no Brasil. E que há grande risco de contágio da produção brasileira, concentrada no Ceará e Rio Grande do Norte.

"Historicamente, o Brasil nunca importou camarão. Não temos fiscalização ou controle de fronteiras, então é muito arriscado e o nosso maior temor é com a contaminação", afirma Itamar Rocha, presidente da ABCC. "Estamos com empreendimentos produtivos que garantem camarão em tamanho grande para todas as redes de restaurantes, mas infelizmente essa conversa de importação voltou novamente".

Nas últimas semanas Itamar Rocha e a diretoria da associação tiveram reuniões com o ministro da Agricultura, Blairo Maggi, com o presidente do Senado, Eunício Oliveira (PMDB-CE), com parlamentares nordestinos, com o assessor da Presidência da República, Sandro Mabel, e com técnicos do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio Exterior e Serviços (Mdic) – para onde se mudou recentemente a Secretaria Especial de Pesca.

De acordo com ele, enquanto o Equador mantém cerca de 220 mil hectares para criação de camarão em cativeiro, o Brasil conta com 25 mil hectares. Rocha diz que qualquer importação do crustáceo equatoriano impactaria a renda dos criadores brasileiros. Toda a cadeia produtiva brasileira do camarão fatura aproximadamente de R$ 2 bilhões por ano.

Rocha também reclama que o Ministério da Agricultura não consultou os criadores de camarão sobre a importação e pede que a Pasta faça visitas técnica às empresas no Equador antes de abrir o mercado brasileiro.

Em relação à ameaça da ABCC em processar a União alegando risco de contaminação por doenças com a importação de camarão equatoriano, o secretário da SDA, Luís Eduardo Rangel, diz que, se isso acontecer, o governo vai recorrer. E lembra que o Ministério da Agricultura até autorizou no passado importações do produto da Argentina, mas que esse comércio está suspenso justamente por decisão judicial.

(Cristiano Zaia | De Brasília)

Por Cristiano Zaia | De Brasília

Fonte : Valor