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Produtores de fumo tentam reduzir oferta

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Produção de fumo no Sul do país: se o objetivo dos agricultores for alcançado, a próxima safra brasileira poderá diminuir para menos de 610 mil toneladas
Insatisfeitos com os preços recebidos das indústrias nas duas últimas safras, os fumicultores brasileiros querem diminuir a área e a produção de tabaco na temporada 2015/16. A Afubra, que reúne os produtores do setor, está recomendando um corte de 13% nas lavouras em comparação com o período 2014/15 e pretende convencer as associações de outros países a também reduzir os volumes para garantir a recuperação das cotações.

"Isso tem que ser feito globalmente", afirma o presidente da Afubra, Benício Werner. O objetivo é limitar a próxima safra brasileira a 268 mil hectares e 607 mil toneladas (ante 695,9 mil no ciclo atual), enquanto em escala mundial a intenção é cortar pelo menos 300 mil toneladas do fumo tipo virgínia, o equivalente a 5% a 6% da variedade que representa 90% da produção global de tabaco.

O dirigente lembra que Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná produzem 97,5% do tabaco brasileiro e estão muito expostos à concorrência internacional. O país é o maior exportador mundial e embarca 85% da safra para quase 100 países, conforme o Sinditabaco, que representa as indústrias fumageiras. O esforço pelo controle da oferta envolve as federações de trabalhadores na agricultura e as federações da agricultura dos três Estados do Sul.

Neste ano, com 60% da safra já comercializada, os fumicultores estão recebendo R$ 7,31 na média geral do quilo do fumo, valor nominal levemente superior aos R$ 7,28 de 2014 mas menor que os R$ 7,45 de 2013, afirma Werner. Segundo ele, as tabelas de referência foram reajustadas em 12,8% no acumulado deste ano e de 2014, mas com o excesso de oferta as fumageiras pagam menos porque são mais rigorosas na classificação dos produtos.

Pela variedade virgínia, que representa 85% da produção nacional, os agricultores recebiam R$ 7,51 o quilo em 2013, mas na safra em curso o valor caiu para R$ 7,35. O presidente ainda espera alguma elevação nas médias com a comercialização do restante do ano, que concentra as folhas de melhor qualidade, mas o retorno ao patamar histórico de R$ 7,88 em valores corrigidos depende a redução da oferta, acredita.

Werner enviou a proposta de enxugamento da produção mundial nesta semana à Associação Internacional dos produtores de Tabaco (ITGA, na sigla em inglês) e já busca o apoio de entidades como a da Argentina, que em 2014 colheu 127,1 mil toneladas. O Brasil é o segundo maior produtor mundial do segmento, atrás da China, que colhe 2,4 milhões de toneladas por ano, a maior parte para consumo interno.

"O ideal é que cada um reduza um pouco", disse o dirigente, referindo-se a países como o Zimbábue, que nos últimos dez anos quadruplicou a produção, para 216 mil toneladas no ciclo 2013/14, além da Índia, terceira maior produtora mundial, com volumes próximos aos brasileiros (669,8 mil toneladas na safra passada), Estados Unidos, Indonésia, Tanzânia e da própria China.

O presidente do Sinditabaco, Iro Schünke, não comenta os preços porque eles são negociados individualmente pelas indústrias, mas defende uma oferta mais "ajustada" à demanda. Para as empresas, que têm compromisso de compra da produção nas áreas contratadas, uma safra muito baixa é "problemática" por acarretar altas nos preços pagos aos produtores, mas um volume além da conta gera estoques acima do desejável e influi negativamente nos valores dos produtos beneficiados.

No primeiro trimestre deste ano, por exemplo, o volume exportado pelas fumageiras instaladas no Brasil aumentou 45%, para 97,1 mil toneladas, mas o preço médio por tonelada beneficiada recuou 3,2%, para US$ 4,55 mil. Com isso, a alta no faturamento das indústrias no mercado externo chegou a 40,4%, para US$ 442,4 milhões.

Conforme Schünke, o desempenho foi influenciado pela necessidade das empresas de vender os altos estoques decorrentes da queda de 24% em volume e valor, para 476 mil toneladas e US$ 2,5 bilhões, das exportações brasileiras em 2014. Segundo ele, no primeiro trimestre são embarcados os produtos da safra anterior, pois o fumo do ciclo em curso começa a ser comprado em janeiro e precisa ser negociado e processado antes de ser despachado.

Já a redução nos embarques no ano passado foi provocada, de acordo com o presidente do Sinditabaco, pela "leve redução" no consumo mundial de cigarros em 2013 e pela consequente diminuição da demanda de matéria-prima. Ao mesmo tempo, houve aumento da oferta de fumo nos países africanos, enquanto a competitividade do tabaco brasileiro foi afetada pela alta dos custos e pelo câmbio desvalorizado no primeiro semestre.

Fonte: Valor | Por Sérgio Ruck Bueno | De Porto Alegre