Pressionada pelo dólar, Tonon pede recuperação judicial

A Tonon Bioenergia, companhia com três usinas de açúcar e etanol no Centro-Sul, engrossou o grupo das sucroalcooleiras que recorreram à Justiça para se proteger de credores. Com dívidas na casa dos R$ 2,8 bilhões, a companhia havia renegociado no primeiro semestre as condições de seus bonds e recebido até dinheiro novo. Mas a forte valorização do dólar no segundo semestre deteriorou sua situação financeira já difícil.

A companhia, que tem como sócios o FIP Terra Viva, gerido pela DGF Investimentos, informou ontem pela manhã a investidores que havia pedido recuperação judicial. No comunicado, afirmou que a decisão foi tomada após um "longo processo de revisão e análise" e que a situação financeira já difícil da companhia foi agravada pela valorização do dólar ante o real e pela restrição de crédito no país.

As três usinas do grupo – duas em São Paulo e uma em Mato Grosso do Sul – processam cerca de 7 milhões de toneladas de cana por safra. A empresa atribui a piora de seus indicadores à seca ocorrida no ano passado – que reduziu em 1,5 milhão de toneladas sua oferta de cana – e ao agravamento da restrição de crédito no país.

Mas no mercado, a avaliação é de que, assim como outras companhias desse setor, a Tonon embarcou na onda de captações no exterior com taxas de juros consideradas elevadas para o baixo retorno da atividade nos últimos anos. Assim, esse desfecho já era esperado. No ano passado, a sucroalcooleira Aralco entrou em recuperação judicial menos de um ano após emitir bonds. Outro caso é do Grupo Virgolino de Oliveira, em recuperação extra-judicial, que também se financiou com captações no exterior.

A investidores, a Tonon observou no último balanço, referente ao trimestre encerrado em 30 de setembro, que essa condição adversa da escassez de crédito no país surgiu justamente no momento em que a empresa realizava pesados investimentos para elevar de 2,5 milhões para 3,7 milhões de toneladas a capacidade da unidade Vista Alegre e para ampliar o plantio de cana própria nas suas outras duas usinas.

Em julho deste ano, a Tonon Bioenergia, que havia sido rebaixada por algumas agências de classificação de risco em maio, conseguiu recuperar um pouco de sua nota de risco de crédito após concluir uma renegociação de dívidas com bondholders (detentores de bonds da empresa).

Foi feita uma troca de bônus seniores que vencem em 2020 por títulos novos e de igual vencimento, mas com "covenants" mais brandos e quase dois anos de pagamento de cupom reduzido – de 9,25% ao ano para 7,25%. Em paralelo, a companhia obteve um empréstimo novo, de US$ 70 milhões, do Gramercy Funds Management.

Mas o último resultado apresentado, referente ao trimestre encerrado em 30 de setembro, mostrava uma condição fora de controle. A dívida havia crescido 32%, para R$ 2,799 bilhões, na comparação com o início da safra, em 31 de março. Pressionada por uma elevada despesa financeira, a companhia – que tem receita anual na casa dos R$ 800 milhões – apresentou um forte prejuízo líquido de R$ 726,5 milhões no trimestre, altamente impactado pela valorização de 24% do dólar no período.

Ontem, a agência Standard & Poor’s rebaixou os ratings de crédito corporativo atribuídos à Tonon Bioenergia de "CCC-" para "D". Também rebaixou os ratings atribuídos aos seus bonds com e sem garantia de "CC" e "CCC-", respectivamente, para "D". A S&P revisou ainda o rating de recuperação da dívida sênior sem garantia da empresa, de "5" para "6", o que indica, segundo a agência, uma recuperação abaixo de 10%. Foi mantida a recuperação da dívida sênior com garantia em "4", o que indica uma recuperação entre 30% e 50%.

Por Fabiana Batista | De São Paulo

Fonte : Valor