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Preços do café desafiam as turbulências

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Fonte:  Valor | Gerson Freitas Jr. | De São Paulo

Commodities: Apesar da queda de 15% desde maio em NY, estoque é baixo e sensibilidade a ameaças à produção é forte

Embora tenham perdido parte da sustentação nessas últimas semanas de turbulências financeiras derivadas da crise na Grécia, os preços internacionais do café devem se manter bem acima das médias históricas por um tempo ainda longo. Se o otimismo com a colheita da safra no Brasil ainda desafia as geadas que ameaçam alguns polos, e os problemas na Europa e o verão no Hemisfério Norte arrefeceram a alta nas bolsas, o balanço entre oferta e demanda segue apertado. Esse cenário deixa o mercado sensível a quaisquer problemas com a produção.

Em Nova York, o preço do café arábica dobrou desde setembro e atingiu, no início de maio, o nível mais alto em 34 anos. Desde então, a queda supera 15%, mesmo contabilizando a disparada de ontem, reflexo da forte queda de temperaturas no Brasil no início da semana. Algumas razões ajudam a explicar a baixa. No lado da oferta, a colheita da safra 2011/12 no Brasil começou, e enquanto não ficar claro o alcance das adversidades climáticas prevalecerá o fato de que os canais de comercialização serão irrigados. A Conab prevê uma colheita de 43,5 milhões de sacas, 9,5% menos que no ciclo passado, mas isso em virtude da bienalidade da produção. E analistas avaliam, também, que a oferta será de boa qualidade.

Na ponta da demanda, o início do verão no Hemisfério Norte tende a esfriar o consumo dos países desenvolvidos nos próximos meses, aliviando a pressão sobre os estoques. Além disso, o agravamento da crise no velho continente fez crescer a aversão dos especuladores a ativos de risco, como é o caso do café e de outras commodities. Resultado: desde o início de maio, os fundos reduziram à metade sua aposta na alta dos preços do café em Nova York, segundo a Comissão de Comércio de Futuros de Commodities dos EUA.

Analistas ponderam, porém, que os fundamentos do mercado são robustos e limitam o espaço para perdas. Na melhor das hipóteses, observa Eduardo Carvalhaes, do Escritório Carvalhaes, o Brasil colherá menos do que 47 milhões de sacas, para uma demanda que, em 2010/11, foi de 53 milhões. Para ele, os preços mais altos refletem mudanças estruturais. "Estamos em uma nova era, com moeda estabilizada, estoques escassos e aumento no consumo".

Segundo a Organização Internacional do Café (OIC), o volume de café armazenado nos países produtores caiu de 55 milhões de sacas, no início dos anos 2000, para menos de 13 milhões no ano passado. Só no Brasil, maior produtor mundial, os estoques de início de safra caíram para 5,5 milhões de sacas, de mais de 43 milhões.

Durante muitos anos, explica Carvalhaes, os preços ficaram abaixo do custo de produção. Além disso, países da América Central e a Colômbia, grande fornecedor de café de boa qualidade, enfrentaram problemas de safra e viram suas colheitas minguarem nos últimos anos. Com o enxugamento dos estoques, o mercado teve de se ajustar. "A demanda mundial cresce cerca de 1,5% ao ano, o que significa um incremento anual de 2 milhões de sacas. Se a crise nos países desenvolvidos não derrubar o consumo, o mundo precisará de, no mínimo, mais 20 milhões de sacas até o fim da década", diz Carvalhaes. É o que colhe o Vietnã, segundo maior produtor mundial.

O Brasil é o grande responsável por esse crescimento. Ancorado no aumento da renda e na disseminação das bebidas de qualidade superior, a demanda interna praticamente dobrou na última década e deve superar 20 milhões de sacas este ano. Em até três anos, projeta Carvalhaes, o Brasil deverá tirar dos EUA o posto de maior consumidor mundial. Superintendente de operações e mercado da Cooxupé, maior cooperativa de cafeicultores do mundo, Lúcio Araújo Dias minimiza o sobe-e-desce dos preços e mira os fundamentos. "A oferta é justa e a demanda é forte. Esses dias fui informado que estávamos carregando os últimos lotes da safra passada. Sempre brincamos que café no armazém dá cria, mas desta vez ele acabou".

Dias afirma que a dinamização do mercado é sua principal fonte de otimismo. "Estamos fazendo muitos negócios, abrindo novos espaços. Recebemos missões estrangeiras numa frequência nunca vista antes". Segundo ele, os produtores associados à Cooxupé já negociaram 35% da nova safra. "Geralmente, nos anos bons, não se negocia mais do que 20% até esta época do ano", diz.

Depois de atingir R$ 555 por saca no começo de maio, o preço pago ao produtor caiu para R$ 503 no início da semana, de acordo com o indicador Cepea/Esalq. Mesmo assim, o valor é 60% maior que o pago um ano antes. Para as torrefadoras, é um problema a ser resolvido. Acuada pela força do varejo, a indústria tem dificuldades para repassar o aumento de custos e amarga prejuízos. Segundo o novo presidente da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), Américo Sato, as empresas incorporaram menos de 10% da valorização do café verde no produto final. "A indústria precisa elevar em até 30% os preços no varejo para se reequilibrar" e continuar investindo em qualidade

Rodrigo Costa, analista da corretora Newedge USA, afirma que os preços do café devem oscilar entre US$ 2,30 e US$ 2,40 por libra-peso ao menos até setembro, quando as lavouras brasileiras começam a florescer. Uma florada promissora poderia abrir caminho para uma queda mais acentuada nas cotações. "Considero difícil pensar em um mercado operando abaixo dos US$ 2 até que tenhamos certeza sobre o tamanho da nova safra brasileira, porque teremos uma oferta bastante apertada no primeiro trimestre de 2012".