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Preço baixo do algodão gera alta de subsídios

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Randall Hill/Reuters
Nos EUA, cerca de 80% da atual colheita será comercializada com subsídios

Os baixos preços internacionais do algodão este ano, em grande medida graças à redução das importações chinesas, deflagaram políticas de subsídios governamentais em diversos países e já levam produtores a pensarem duas vezes antes de disponibilizar seu produto no mercado.

As evidências mais claras dessa estratégia estão nos Estados Unidos, onde, apesar de os cotonicultores terem acabado de colher uma safra muito maior que a anterior e estarem com os estoques abarrotados, a comercialização continua lenta. Das 3,5 milhões de toneladas de algodão que o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) calcula que tenham sido colhidas neste ciclo 2014/15 no país, estima-se que os produtores recorrerão a programas de subsídio para 80% de sua produção, ou 2,8 milhões de toneladas.

Segundo cálculos da consultoria FCStone, desse volume subsidiado 924 mil toneladas deverão ser incluídas no programa de empréstimo de Washington – cerca de 652 mil toneladas já foram arroladas, ou 28% de todo o algodão da safra atual que já foi colhido, beneficiado nas algodoeiras e classificado até agora.

Por esse programa, o agricultor contrata um empréstimo junto ao governo por meio do qual recebe US$ 0,52 para cada libra-peso do algodão comprometida na operação. Quando o AWP (medida de preço mundial do algodão ajustado aos valores nos portos americanos) está abaixo desse patamar, o produtor pode vender sua mercadoria e pagar seu empréstimo pelo mesmo preço acertado na comercialização. Quando está acima, ele pode fazer a comercialização e pagar o empréstimo sem juros, embolsando a diferença.

Outro programa americano de apoio, de subsídio direto, deve apoiar o escoamento das outras 1,8 milhão de toneladas. Nesse caso, o produtor apenas solicita a diferença líquida entre o AWP e os US$ 0,52 no momento da venda, sem comprometer o algodão com o governo.

Os dois programas, portanto, asseguram a renda do cotonicultor quando os preços internacionais caem abaixo de US$ 0,52. Mas há alguns limites: produtores com receita acima de US$ 900 mil por ano não são agraciados com a benesse, enquanto quem pode participar recebe no máximo US$ 125 mil de subsídio para qualquer commodity.

Apesar dessas limitações, o afluxo de produtores aos programas de apoio tem chamado a atenção, já que, com isso, eles têm até junho de 2015 para ficar com o empréstimo e segurar as vendas. "As tradings estão vendo que os produtores estão segurando as vendas no mercado físico e recompondo estoques. Em uma situação de aperto de oferta de algodão de qualidade, o mercado fica menos sujeito a quedas", afirma Bruno Zanutto, consultor de gerenciamento de risco da FCStone.

Mas, mesmo sob a influência de uma colheita americana 23% maior em 2014/15, os contratos futuros da pluma negociados na bolsa de Nova York têm se mantido acima de 58 centavos de dólar por libra-peso. No último mês, por sinal, os papéis de segunda posição de entrega na bolsa subiram cerca de 3%, em virtude da revisão, para cima, de estimativas para a demanda global.

Paralelamente, os valores do AWP americano têm oscilado "de lado". Entre 28 de novembro a 4 de dezembro, a libra-peso era cotada a 46,06 centavos de dólar a libra-peso. Na semana seguinte, o valor subiu para 46,36 centavos de dólar.

A expansão da produção americana e as garantias oferecidas por Washington preocupa o setor produtivo brasileiro, que protagonizou por uma década – e venceu – uma disputa diplomática contra a política de subsídios dos EUA. O temor é que, com o apoio oficial, os agricultores americanos continuem a ampliar o plantio em 2015/16, o que tende a reduzir ainda mais a rentabilidade dos produtores brasileiros.

"Se houver aumento, infelizmente não temos o que fazer até 2018", disse Gilson Pinesso, presidente da Abrapa, entidade que representa os cotonicultores brasileiros. Em troca da garantia do recebimento de uma indenização de US$ 300 milhões, os brasileiros aceitaram não questionar a nova política americana ("Farm Bill") até que ela expire, em 30 de setembro de 2018. Mas Pinesso não acredita que haverá aumento do plantio nos EUA em 2015/16.

Os americanos não são os únicos que estão sendo favorecidos por subsídios nesta temporada. Mesmo o Brasil, quinto maior produtor global, voltou a subsidiar a venda da pluma após quatro anos sem interferir no mercado. Este ano deverá terminar com R$ 243,6 milhões comprometidos pelo governo para o pagamento de prêmio para venda de 905,3 toneladas, arrematadas em três leilões de Prêmio Equalizador Pago ao Produtor (Pepro) da Conab.

Na Índia, maior produtor mundial, o governo tem comprado a produção dos agricultores para fazer estoque. Das 8,7 milhões de toneladas estimadas pelo governo indiano para a colheita desta safra, a estatal Cotton Corporation of India (CCI) deve arrematar entre 1,6 milhão e 2,2 milhões de toneladas.

Na safra 2013/14, quando os preços ainda estavam sustentados pelo apetite chinês, os subsídios à produção do algodão consumiram US$ 6,5 bilhões dos cofres públicos ao redor do mundo, segundo o Comitê Consultivo Internacional do Algodão (Icac). O presidente da entidade, o brasileiro José Sette, prefere não traçar uma projeção para o volume de recursos que devem ser empenhados mundialmente nesta temporada, mas indica que é normal o aumento dos subsídios em ciclos de preços baixos. Ele ressalta, porém, que esse tipo de política "apenas serve para postergar ajustes", mas já tem "atenuado" o potencial de queda dos preços do algodão.

Os preços da pluma, porém, continuam pressionados com a forte redução das importações chinesas nesta temporada. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) calcula que o país comprará 1,5 milhão de toneladas do produto em 2014/15, ante 3,1 milhões em 2013/14 e 4,4 milhões em 2012/13. A Com uma agressiva estratégia de compras nessas duas safras, a China, que é quarto maior país produtor de algodão do planeta, passou a dominar quase 60% dos estoques globais, o que explica a forte retração.

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Fonte: Valor | Por Camila Souza Ramos | De São Paulo