Preço baixo desestimula a produção de trigo no país

Os preços mais baixos do trigo tendem a desestimular o plantio do cereal no Brasil em 2015. O Rio Grande do Sul, segundo maior produtor do país, deverá puxar a retração. No Paraná, que lidera a semeadura, alguns produtores consideram deixar de plantar para colocar pastagem e assim garantir ao menos uma melhor condição de adubação para o ano que vem.

O cultivo do cereal em 2015 no país deverá se estender por 2,502 milhões de hectares, segundo estimativas da Safras & Mercado, um declínio de 6% em relação a 2014. No entanto, se o clima for favorável a produção pode até aumentar. A consultoria estima que o rendimento das lavouras no país crescerá 24% em 2015, para 2,954 mil quilos por hectare. Com isso, a produção nacional pode chegar a 7,39 milhões de toneladas, 16% acima de 2014.

Se de fato ocorrer, a maior produtividade será uma recuperação em relação às perdas causadas pelo clima no ano passado. Chuvas na colheita gaúcha reduziram o rendimento quase à metade. Além disso, provocaram uma incidência de fungos acima dos limites permitidos pela legislação brasileira.

A expectativa de uma menor remuneração com o cultivo do trigo este ano está no centro das explicações para essa área menor. No Paraná, a tonelada do cereal está valendo 18% menos que há um ano, ou R$ 682,45, de acordo com o indicador Cepea/Esalq. No Rio Grande do Sul, estão 14% menores.

Nas estimativas da Safras & Mercado, a área plantada no Paraná cairá 5%, para 1,250 milhão de hectares. Já os levantamentos de intenção de plantio feitos pelo Departamento de Economia Rural (Deral), órgão ligado à Secretaria de Agricultura do Paraná, indicam que, na média, haverá uma certa estabilidade.

A projeção oficial do departamento é que o plantio cobrirá 1,36 milhão de hectares em 2015, praticamente a mesma área cultivada em 2014, de 1,39 milhão de hectares. "No norte do Estado, os produtores perderam a janela de plantio de milho safrinha. Por isso, devem ampliar em 9% a área com trigo", explica o analista do Deral, Hugo Godinho.

Mas no sudoeste e no sul do Estado, muitos vão preferir deixar a terra com pastagem, garantindo assim, ao menos, alguma adubação para o próximo ano, afirma o especialista do Deral. "No sudoeste, o cultivo do cereal tende a ser de 15% menor, e no sul do Estado, vai encolher 7%", estima.

O produtor dessas duas regiões no Paraná, no entanto, ainda tem mais tempo para pensar, lembra o analista, uma vez que a janela "local" de plantio do cereal vai até 20 de julho. "Pode ser que ele mude de ideia na última hora", avalia.

Segundo Adriano dos Santos, corretor da Safrasul, em Ponta Grossa (PR), os produtores paranaenses que deixaram para comprar os insumos de última hora já estão gastando entre R$ 670 e R$ 700 para cada tonelada (a ser colhida), acima do preço pelo qual o cereal está sendo vendido e muito além do preço mínimo do governo. "Quem deixou para comprar adubo agora pagou caro por causa [da alta] do dólar", diz.

A maior redução de área deve ser vista no Rio Grande do Sul, onde o plantio começa em junho. Nas estimativas da Safras & Mercado, a queda será de 8%, para 1,060 milhão de hectares. Mas para a Federação das Cooperativas do Rio Grande do Sul (Fecoagro-RS), o recuo em 2015 será de 13%, para 1 milhão de hectares.

O presidente da Fecoagro-RS, Paulo Pires, diz que o desânimo não se deve somente aos preços mais baixos, mas também a uma certa frustração com a postura do governo. "A ministra Kátia Abreu [Agricultura] sinalizou que o preço mínimo do trigo será corrigido em apenas 4,6%, quando no último ano, o aumento de custos foi na ordem de 15% a 18%", afirma.

Fonte: Valor | Por Fabiana Batista e Camila Souza Ramos | De São Paulo